domingo, 28 de maio de 2017

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar | CRÍTICA


"O mundo continua o mesmo. Só há... menos nele". A frase é de um diálogo do terceiro filme, mas se encaixa perfeitamente em Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar, quinto episódio da série que foi o maior trunfo da Disney na década passada e que agora se vê num ímpeto de voltar a ser a mesma irresistível, enérgica e debochada aventura bucaneira lançada em 2003, vítima da própria mania de grandeza que, apesar de ter proporcionado estupendas sequências de ação nos filmes seguintes, também provocou sua relativa exaustão. Sentimento este que também é evidente nesta nova produção, o que não quer dizer que esteja condenada ao seu fim.

Dizem por aí que o Capitão Jack Sparrow já não é mais o mesmo, exagerado em seus trejeitos e com os problemas particulares de Johnny Depp influenciando negativamente sua vontade em interpretar o personagem, e que tampouco os novatos nessa nova aventura têm seu lugar ao sol. A verdade é que o roteiro de Jeff Nathanson (Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal) não é lá aquelas coisas e pouco colabora com o elenco ao lhes fornecer um material com incidentes e diálogos que sejam, no mínimo, aprazíveis ou que tragam algo inédito à trama. Em tese, o filme tem um dos melhores argumentos da franquia e faz jus ao tom esperado de um programa familiar, mas o que se vê na prática é uma história carente de brilho próprio, desinteressada em aprofundar seus arcos dramáticos e propensa a repetir o mesmo esquema de piadas, o que nos faz lamentar pelo destino da maioria dos personagens que acompanhamos há 14 anos com tanto entusiasmo. Não por menos, ver a cena de Jack todo trôpego debaixo da chuva e sem nenhum tostão transmite mais uma estranha melancolia do que uma situação, no mínimo, risível.



Dirigido com irregularidade pelos noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg, Dead Men Tell No Tales (no original americano) traz um bom início ao apresentar o jovem Henry Turner (Brenton Thwaites), a cientista Carina Smyth (Kaya Scodelario) e o amaldiçoado capitão Salazar (Javier Bardem) com suas motivações relativamente aceitáveis se o roteiro (e a edição, posteriormente) não as complicassem pra pior, incluindo aí mais um burocrático militar britânico interpretado por David Wenham. Apesar de os diretores terem se lançado ao mar com o bom A Aventura de Kon-Tiki, é evidente que a dupla não consegue estabelecer uma mise-en-scène coerente para a narrativa ao dar preferência a enquadramentos fechados focando em ações somente em primeiro plano na maior parte do tempo, confluindo para um dinâmica bagunçada que prejudica o entendimento das lutas/fugas/perseguições e demais elementos essenciais à história.

Tamanho saldo negativo, todavia existem coisas boas que fazem o filme ser uma experiência divertida. A começar por Geoffrey Rush fazendo milagres com o texto fraco e entregando mais uma performance memorável de seu irônico Barbossa, com o adicional de revelar um lado caridoso pouco conhecido até então (e não se trata de seu macaquinho Jack). Há um que de criativo no design dos fantasmas espanhóis com suas aparências cinzentas e flutuantes, além de criarem uma bela e estrelada ilha que antecede o igualmente caprichado Tridente de Poseidon. Mesmo assim, a melhor parte do longa está na sequência do roubo do banco que retoma o irreverente entretenimento da série ao ficar bem próximo de remontar o excepcional cinema de Buster Keaton colocando seu personagem em posições tão absurdas e cômicas que, apesar da breve escala de tensão, proporciona a melhor sessão de risadas do longa.



Com uma relativa boa apresentação em 3D (especialmente nas cenas iniciais), Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar é o filme de menor duração na série, mas a sensação é de ser tão cansativo quanto os três intermediários a julgar pelo fato de a narrativa não se conectar com o público na maior parte da projeção. Jack Sparrow chega a ser dispensável para a aventura vide suas falas carentes de sua afiada malemolência, por mais que Depp demonstre adorar seu personagem. Sem Hans Zimmer, a trilha sonora do novo compositor fica fadada a repetir os temas do músico alemão apostando mais na nostalgia do que em melodias memoráveis para os elementos e demais personagens introduzidos desta vez.

Diante dessa maré baixa, só resta a Disney zelar pela franquia retribuindo seu sucesso bilionário dos filmes anteriores dando, daqui pra frente, o poder criativo a um grupo competente e interessado tal como bem faz com a Marvel e a Lucasfilm, suas duas outras propriedades lucrativas. Do contrário, é pedir para afogar no raso e ver que não foi e não será dessa vez que o Capitão Jack Sparrow se lançou em mais uma formidável e inesquecível aventura no mar, terminando agora com um tesouro que pouco compensa.




P.S.: Como em todos os outros filmes, há uma cena após os créditos.

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