quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Animais Fantásticos e Onde Habitam | CRÍTICA


Se fôssemos nos guiar pelos cartazes de Harry Potter e As Relíquias da Morte: Parte 2, nossa longa jornada cinematográfica pelo universo criado por J.K. Rowling terminaria em julho de 2011, numa árdua e comovente despedida que só mesmo um Vira-Tempo poderia remediar. Naquela ocasião, a autora parecia satisfeita com seu fenômeno literário, mas, mesmo tendo lançado pares de diferentes romances adultos, cedo ou tarde seu retorno ao Mundo Mágico era mais do que iminente. Estreando como roteirista em Animais Fantásticos e Onde Habitam, Rowling demonstra novamente seu dom de encantar o público com personagens carismáticos e uma história rica em detalhes que, com suas metáforas, não deixam de evocar questões contemporâneas.

De fato, antes mesmo de o magizoologista chamado Newt Scamander (Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo) aportar em Nova York no ano de 1926, sabemos que há um bruxo de nome Grindelwald atacando na Europa, algo que faz toda a comunidade mágica ficar em alerta, enquanto as colunas dos jornais destacam costumes e leis cada vez mais rígidas, seja a proibição do porte de criaturas ou o aumento da segregação entre bruxos e não-majs (trouxas, para os britânicos); estes, por sinal, revelando condutas pra lá de conservadoras, tanto na política como nos fervorosos discursos clamando uma "Nova Salém" nas ruas.



Não seria coincidência, portanto, que essa atmosfera tensa piora quando alguns dos animais fantásticos da maleta de Newt escapam pelas ruas de Nova York, e que o aspirante a padeiro Jacob Kowalski (Dan Fogler) também esteja diretamente ligado a essa confusão, tal qual uma oportunidade de ouro para que Tina Goldstein (Katherine Waterston, Steve Jobs) prove seu devido valor ao MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos da América), tão esnobe na execução das suas leis rigorosas e no ouro da arquitetura de sua sede. Enquanto isso, Percival Graves (Colin Farrell) empreende-se na investigação de uma entidade misteriosa que vem causando um rastro de destruição pela cidade, mas suas perturbadoras conversas com Credence (Ezra Miller) pouco a pouco comprovam que a proteção da comunidade bruxa é de baixa prioridade perante os interesses particulares do Diretor de Segurança Mágica.

Além dos momentos divertidos e sombrios que a narrativa propõe e conquista por sua inventividade, qualidade técnica e artística também não falta neste primeiro Animais Fantásticos. Enquanto a trilha sonora de James Newton Howard respeita o legado sinfônico dos outros filmes sem deixar de apresentar novas e marcantes composições, a fotografia de Phillipe Rousselot prenuncia nas luzes crepusculares a crise que viria a cair sobre a cidade nos anos seguintes, ocasionais tons de sépia que, por outro lado, não prejudicam em nada os belos figurinos desenhados por Colleen Atwood que dão até vontade de resgatar essa moda quase centenária. Criatividade não falta também no departamento de design, com Stuart Craig novamente se superando nas edificações mágicas adornadas com os traços da art nouveau, sem contar no ótimo trabalho de adereços caprichados nos mínimos detalhes. Até mesmo o 3D se projeta bem e aumenta a interatividade, principalmente quando feitiços são conjurados e as fugitivas criaturas também querem sair da tela.



Diante de tantos aspectos positivos, é pesaroso dizer que o roteiro se excede além da conta, embora seus diálogos sejam pra lá de envolventes e que cada informação contida neles possa ser uma referência para contentar os fãs da série. Na intenção de deixar tudo consistente, Rowling cria cenas para apresentar personagens que terão alguma relevância futura – mas pouco têm a fazer ou dizer por ora (vide o caso de Jon Voight– ou para mostrar o quão densa é a comunidade bruxa americana e sua relação com os não-majs. Longe de serem cenas ruins, parece haver um certo receio do diretor David Yates (que também dirigiu os quatro últimos Harry Potter) e do editor Mark Day em cortar tais sequências correndo o risco de deixar pontas soltas, pelo contrário, tal decisão acarreta no retardamento do clímax e seu ritmo propenso ao cansaço. Não por menos, o mesmo aconteceu em A Lenda de Tarzan, também assinado pelo diretor.

Verdade seja dita, o quarteto apresentado aqui não perde em nada para o adorado trio que foi acompanhado por uma geração que, por sua vez, também se encontra na fase adulta. Com um jeito acanhado e um andar meio Chaplin, Redmayne conquista com sua feição simpática e caridosa, mostrando-se um sujeito solidário pela causa animal a frente do seu tempo. Por onde passa, Katherine Waterston marca presença e sua personagem faz questão de se mostrar prestativa (e até durona) na tentativa de superar a hegemonia masculina vigente até nos cargos da magia. E o que dizer da deliciosa interpretação de Alison Sudol como Queenie, a irmã legilimente de Tina? Da sua voz afável digna de uma estrela de filmes antigos a sua curiosidade um tanto quanto ingênua em conhecer sobre o que se passa na mente alheia, a moça revela um coração grande capaz de quebrar o maniqueísmo que havia entre bruxos e não-majs, o que nos leva a interpretação cômica de Dan Fogler e seu personagem que não pensa duas vezes em usar o esforço braçal para ajudar seus novos amigos.



A uma primeira vista, parece até que o filme é voltado para o público adulto justamente por ser a maioria em seu elenco. Fato é que, diferente de boa parte do conteúdo de Harry Potter, Rowling não se esquece do caso de seus livros serem queimados por grupos religiosos no mesmo país onde sua nova história se situa. Nisso, a roteirista/produtora não poupa cenas para expor os métodos contraditórios das "pregações" e os discursos acusativos de candidatos políticos que persistem em empregar no intuito de conquistar a euforia extremista de seu eleitorado, quando nada mais são do que falas vazias impregnadas de ódio; sentimentos esses que resultam aqui na violenta e incontrolável figura do Obscurus.

Enquanto o eterno duelo entre o bem e o mal ainda surgirá nas mais diversas formas na ficção, Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts And Where To Find Them) é garantia de um bom escapismo para todas as idades, projetando na fala de Kowalski a vontade de cada espectador em querer ser um bruxo para assim contemplar aquela magia com as próprias mãos, para degustar as guloseimas que são feitas por encantos, da vontade de ter um Tronquilho, um Pássaro-Trovão ou até um Pelúcio de estimação, por mais empecilhos que isso possa trazer. Assim como Harry contava os dias para voltar para Hogwarts, tão logo compartilhamos de sua ansiedade para acompanhar os próximos episódios desta nova era do Mundo Bruxo.



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