sexta-feira, 29 de abril de 2016

Better Call Saul (2ª Temporada) | CRÍTICA


É inegável que Breaking Bad trouxe uma linguagem renovadora no que se refere ao modo de se fazer séries de televisão. Dos pontos de vista inusitados e as jornadas sem volta de seus personagens tão marcantes, as câmeras sempre estiveram a favor da narrativa, permitindo-se inclusive na extensão dos planos que por vezes tornaram as locações no Novo México em cenários com um pé no místico. Encerrado o arco de Walter White/Heisenberg, ainda havia a sede de conhecer mais sobre esse universo que alcançou recordes na audiência em sua temporada final e, quando anunciaram as duas temporadas de Better Call Saul, esta nova série criada por Peter Gould e Vince Gilligan conseguiu manter o alto nível de qualidade, algo raro quando se trata de retomada de franquias. 



Quanto a carreira do trambiqueiro advogado Saul Goodman (Bob Odenkirk), a primeira temporada mostrou os primeiros passos do então Jimmy McGill, que nem sempre tinha uma solução inusitada na ponta da língua para resolver problemas tão "delicados" quanto. Com uma apresentação indo de flashforwards a flashbacks, as desventuras de Jimmy/Saul nunca estiveram tão relacionadas quanto o que já vimos e, se nesta temporada temos o infortúnio de encarar a aborrecível burocracia dos escritórios de advocacia, percebemos que as decisões desses anti-heróis, seja Walter, Skyler, Jesse ou Saul, sempre estiveram no limiar entre o certo e o errado, provando ser um ato de "bem" por uma pessoa querida.

Continuando a saga de Jimmy contra a Sandpiper Crossing, a rede de casas de repouso para idosos acusada de cobrar taxas abusivas para itens tão baratos, um acordo na HHM faz com que (o futuro) Saul seja "transferido" para outra empresa de advocacia que, aparentemente, se encaixa mais aos moldes de Jimmy. A Davis & Main, diferente da associação do sorridente Howard Hamlin (Patrick Fabian) e Chuck McGill (Michael McKean), tem um ambiente muito mais amistoso, onde até mesmo o chefe termina o expediente tocando violão para desestressar em sua própria sala. Benefícios também não faltam para Jimmy, que agora passa a usufruir de carro, onde seu caneco de café não se adapta ao compartimento, e um apartamento corporativo espaçoso, esquecendo temporariamente do seu "estúdio" nos fundos do salão de beleza chinês. No entanto, Jimmy não nasceu para ficar nos moldes quadriláteros tão impostos por uma sociedade politicamente correta. Ele quer arrojar, sem se preocupar com as legalidades.


Better Call... Mike!?



Enquanto Jimmy e Kim (Rhea Seehorn) vivem num impasse amoroso que evitam comprometer o lado profissional, constantemente prejudicado por Howard e Chuck, levando a dezenas de cenas redundantes e pouco convidativas para a sua compreensão, é Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) que rouba o show por vários episódios e, por menos inédito que seja o personagem e seu lado familiar, o velho policial aposentado continua tão interessante quanto. Antes de ser o letal sicário contratado por Gus Fring em Breaking Bad, Mike continua ressentido pela morte do filho e faz de tudo para manter a neta confortável, seja fazendo uma vigília noturna pela vizinhança ou passeando e completando a figura paterna ausente. Mas tanto Breaking Bad como Better Call Saul são duas séries que provocam seus personagens, catalisando seus anseios de transgressão e Mike, querendo ou não, sempre será aquele assassino a sangue-frio. 

Todavia distante de sua eficiência, Mike quer prover a poupança para a neta e, quando o dinheiro fala mais alto, o serviço de guarda-costas para um traficante bizarro o leva a retomar o contato com o chicano Nacho (Michael Mando), trazendo novamente a família Salamanca em cena. É no quarto episódio, Gancho, que o fan service volta à tona, rendendo num dos melhores momentos de tensão da série, precedido pelo chocante flashforward que mostra um Mike com a cara toda ferrada, uma briga a ser apresentada apenas no último terço do episódio com o esquentado Tuco (Raymond Cruz), também colocando na jogada o Tio Hector (Mark Margolis), não menos perigoso que o enfermo velho e sua campainha agonizante. Outras figuras conhecidas também marcam presença, mas quando será que Ehrmantraut vai passar em um Los Pollos Hermanos?


"Se quiser ser diretor, tome coragem."



É verdade que o timing cômico de Bob Odenkirk não é mais o mesmo de suas aparições em Breaking Bad, quase sempre apavorando Walt, Jesse e até Skyler com ideias mirabolantes para lavar o dinheiro "arrecadado". Aqui, continuamos a acompanhar o lado familiar dos McGill com as introduções de episódios que perturbam o espectador até alguma relação vir à tona, sendo a de O click da desforra crucial para a compreensão do tratamento rude de Chuck com Jimmy, ainda na obrigação de amparar o irmão mais velho e suas crises anti-eletricidade. Depois do belo discurso de Kim, não há sentimento maior do que pena.

Better Call Saul, contudo, é hábil em escapar das armadilhas de se tornar mais um novelão "casos de família", algo que vem contaminando outras narrativas seriadas contemporâneas, e entrega momentos excepcionais que o transformam num produto meta-audiovisual. Das fotografia com luzes recortadas e uma perceptiva edição de som, a equipe da série não se contém e apresenta alucinadas montagens ao som da trilha de Dave Porter, que também potencializa o plano-sequência de abertura do episódio Fifi, incrível por si só. Às vezes parece que é tudo feito na astúcia, absorvendo a energia de cada local sem comprometer o planejamento prévio, e é aí que a irreverência de Odenkirk volta com tudo.



Convincente, o ator lembra que seu personagem dispensa burocracias e preza pela boa apresentação, enxergando oportunidades mesmo na carência de recursos, vide as cenas em que Jimmy está com uns jovens estudantes de Cinema rodando um comercial. Um ensinamento e exercício de perspectiva que se apropria de elementos ao redor para engrandecer um movimento de câmera e seu personagem retratado, uma tentativa de se fazer história, algo que nos tira da realidade e nos faz deslumbrar, como o semblante de Kim ao ver, por fim, o tão falado comercial de Jimmy e seus idosos heróicos.

Vulnerável a deslizes, como provou seu desenvolvimento lento nos primeiros episódios da temporada, com um "mais do mesmo" já visto na anterior,
Better Call Saul se encaminha para ser mais um programa memorável, digno do cânone de Breaking Bad, e é irônico dizer que não sabemos como vai acabar desta vez. Seja no Novo México ou em Nebraska, Saul Goodman marca presença.




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