segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Carol | CRÍTICA


Em mais uma noite fria na Nova York da década de 50, duas mulheres se encontram no salão do café de um hotel. A mais jovem, Therese Belivet (Rooney Mara) chegou ao The New York Times como fotógrafa estagiária, mas antes disso a moça teve que encarar o balcão de uma loja de departamentos, onde lá atendeu Carol Aird (Cate Blanchett), a mulher que está sentada diante dela. A tímida moça mal esperava que, de um mero encontro, despertaria algo muito além de uma amizade, mas uma paixão construída com ternura e conduzida com parcimônia por Todd Haynes em Carol.

Se a Inglaterra da mesma época ainda tratava a homossexualidade como uma doença, condenando o "doente" à castração química (vide O Jogo da Imitação), os Estados Unidos da era pré-rock n' roll e do movimento beatnik estava por descobrir a liberdade sexual, ainda que predominantemente heteronormativa. Nada mais impensável, então, do que ver um casal "homoafetivo" trocando carícias em público ou até mesmo em uma conversa mais íntima, algo que é condenável por alguns até hoje, estimulando a intolerância. Tudo parecia menos intenso, mais discreto, nas entrelinhas, o que não quer dizer que o amor verdadeiro era proibido, pelo contrário, ele era de uma construção aparentemente sem pressa e com mais disposição.

Adaptado a partir do livro escrito por Patricia Highsmith (que também escreveu Pacto Sinistro, cuja adaptação foi dirigida por Alfred Hitchcock em 1951), Carol acaba se mostrando mais do que um filme voltado a uma relação amorosa entre duas mulheres. Indo além do romance, há um flerte com o road movie e também com os filmes natalinos, o que não é mera coincidência, considerando a ambiguidade de seu título, remetendo às cantigas da data festiva. Se Carol traz os mesmos temas solenes de Natal, daqueles que pregam a união de famílias felizes em seus lares, a verdade aqui é mais diferente: Carol está em processo de separação com seu ausente marido, Harg (Kyle Chandler), mas não quer perder a guarda da filha pequena, tendo que aturar seus sogros taxativos ao invés de se divertir com a amiga/comadre/ex-affair, Abby (Sarah Paulson). As amizades de Therese, assim como ela, desfrutam da liberdade de sua juventude, as festas sem ter hora pra acabar, o desejo de poder se casar com quem gosta, a vontade de experimentar o novo. É nas pequenas trocas de olhares, toques de mãos e gentilezas que Terry vai se sentindo cada vez mais atraída por Carol, essa mulher abastada, mas fascinante, uma sensação embriagante que nenhum beijo roubado por um amigo conseguiu superar e, quando as duas passam por um túnel iluminado a caminho de Nova Jersey, essa experiência de amor à primeira vista se torna irreversível, mesmo que os destinos passem por caminhos tumultuosos.



Enquanto Todd Haynes dirige a narrativa principal tratando a relação das duas amantes com uma serenidade e respeito ímpar, muito longe de parecer algo promíscuo (como diriam alguns comentários homofóbicos), acontece que, a partir do momento em que Carol e Therese pegam a estrada para curtir a virada do ano, o roteiro passa a investir em uma série de subtramas cansativas, como nas cenas em que o casal Aird se encontra para discutir a guarda da filha ou quando os "machos-alfa" do filme decidem ir atrás das "suas" mulheres, por exemplo, tais momentos parecem insignificantes, sequer há um peso dramático relevante. Para piorar de vez, a proposta de espionagem no motel como clímax do segundo ato é apressada, se não mal encenada, ocasionando numa resolução boba cujo impacto vem em uma cena muitos minutos depois, guardando a melhor hora de Blanchett, sem esquecer de mencionar o momento em que Carol e Abby conversam sobre o ocorrido e, de súbito, um carro buzina freneticamente e com os faróis acesos com a luz incidindo para a janela. Quem era o indivíduo? Pelo visto, o corte da edição deixou esse "mistério" por conta da imaginação do espectador.

De suas qualidades, Carol guarda as atuações honestas de Mara e Blanchett (ainda que não sejam suas melhores), a inspirada trilha de Carter Burwell, porém, é a direção de fotografia em 16mm de Edward Lachman o maior destaque da produção, com suas incríveis nuances de cores e texturas, deixando tudo mais tátil e até mágico, e acrescente aí um dos trabalhos de desfoque mais bonitos da temporada. Novamente, destaco a cena do túnel com suas transições pra lá de vertiginosas. Assim como Terry, dá ainda mais vontade de sair por aí fotografando.




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