Filme escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027 traz um relato muito bonito de uma parte que não somos acostumados a ver do país.
Em Feito Pipa, novo filme de Allan Deberton, vemos a história de Gugu, um menino que mora com a avó Dilma (Teca Pereira), gosta de maquiagem e música pop e tem trejeitos afeminados, o que enfurece seu pai (Lázaro Ramos), um homem conservador que quer que o filho se destaque no futebol.
Abordando uma situação comum para muitas pessoas, o filme tem muita força quando explora a relação de Gugu com a avó, que em momento algum critica ou comenta sobre a masculinidade do garoto, pois valoriza a liberdade de ser quem se é. Isso se reflete nas histórias que conta e nos romances que vive na terceira idade. Ela revela como tinha uma visão muito mais progressista do mundo ao desejar namorar e fazer faculdade, sendo uma mulher negra do interior cearense nos anos 1960.
Vi comentários que falam sobre a sensibilidade do filme e discordo em parte, pois acho que há momentos em que a narrativa é explícita e reforçada pelos diálogos dos personagens, mas também há momentos profundos de silêncio que não precisam de explicação.
Acredito que a montagem poderia ser um pouco mais enxuta e dinâmica. Digo isso porque fiquei com a impressão de que os takes respiram mais do que precisavam antes dos cortes, mas essa é uma percepção pessoal. Isso combina muito com o que penso sobre a narrativa do filme, que está muito mais presente na força do que na sensibilidade. Aqui, nada é subtexto: tudo está bem claro e acima da superfície.
O que vale dizer é que o filme possui uma grande dose de coração. Mesmo em um lugar geograficamente duro, que tenta te definir, ainda há espaço para ser livre, e nisso mora algo muito especial.
A impressão que fica é quase a de uma versão biográfica de muitos Gugus espalhados por um Brasil profundo, que recebem um referencial muito específico, têm uma criação cercada de mulheres e enxergam violência em quase tudo o que é associado ao masculino. São crianças cercadas por figuras paternas que as repreendem, pelo bullying e por crimes presentes ao seu redor, sem que uma dignidade mínima lhes seja garantida. Feito Pipa é um caso com o qual muitas pessoas podem se identificar e ganha potência narrativa quando coloca o afeto em cena, mesmo quando ele vem de pessoas que não sabem muito bem como expressar esse carinho por aqueles que estão ao seu redor.
Confira o trailer abaixo:



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