sexta-feira, 30 de outubro de 2026

FEITO PIPA - todos querem ser livres para voar feito pipa | CRÍTICA

 


Filme escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027 traz um relato muito bonito de uma parte que não somos acostumados a ver do país.

Em Feito Pipa, novo filme de Allan Deberton, vemos a história de Gugu, um menino que mora com a avó Dilma (Teca Pereira), gosta de maquiagem e música pop e tem trejeitos afeminados, o que enfurece seu pai (Lázaro Ramos), um homem conservador que quer que o filho se destaque no futebol.

Abordando uma situação comum para muitas pessoas, o filme tem muita força quando explora a relação de Gugu com a avó, que em momento algum critica ou comenta sobre a masculinidade do garoto, pois valoriza a liberdade de ser quem se é. Isso se reflete nas histórias que conta e nos romances que vive na terceira idade. Ela revela como tinha uma visão muito mais progressista do mundo ao desejar namorar e fazer faculdade, sendo uma mulher negra do interior cearense nos anos 1960.

Vi comentários que falam sobre a sensibilidade do filme e discordo em parte, pois acho que há momentos em que a narrativa é explícita e reforçada pelos diálogos dos personagens, mas também há momentos profundos de silêncio que não precisam de explicação.

Acredito que a montagem poderia ser um pouco mais enxuta e dinâmica. Digo isso porque fiquei com a impressão de que os takes respiram mais do que precisavam antes dos cortes, mas essa é uma percepção pessoal. Isso combina muito com o que penso sobre a narrativa do filme, que está muito mais presente na força do que na sensibilidade. Aqui, nada é subtexto: tudo está bem claro e acima da superfície.



O que vale dizer é que o filme possui uma grande dose de coração. Mesmo em um lugar geograficamente duro, que tenta te definir, ainda há espaço para ser livre, e nisso mora algo muito especial.

A impressão que fica é quase a de uma versão biográfica de muitos Gugus espalhados por um Brasil profundo, que recebem um referencial muito específico, têm uma criação cercada de mulheres e enxergam violência em quase tudo o que é associado ao masculino. São crianças cercadas por figuras paternas que as repreendem, pelo bullying e por crimes presentes ao seu redor, sem que uma dignidade mínima lhes seja garantida. Feito Pipa é um caso com o qual muitas pessoas podem se identificar e ganha potência narrativa quando coloca o afeto em cena, mesmo quando ele vem de pessoas que não sabem muito bem como expressar esse carinho por aqueles que estão ao seu redor.


Feito Pipa
fala sobre paternidade, liberdade e identidade, temas universais, mas muito brasileiros no momento em que vivemos.

Confira o trailer abaixo:



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