quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Trama Fantasma | CRÍTICA


Mestre de um cinema formalista em lamentável extinção no amplo circuito, Paul Thomas Anderson é um cineasta que se preza em levar a arte e a técnica a patamares próximos da perfeição com um histórico de filmes que, de dramas intensos a comédias insanas, sempre obteve ressalvas mínimas e um apreço crescente do espectador refinado à parte de um costumeiro baixo reconhecimento nas temporadas de premiações. Tomado por um interesse pela haute couture após rodar Vício Inerente, o diretor e roteirista tece em Trama Fantasma uma incomum e sufocante história de amor cujas relações complexas só tendem a engrandecer tamanha elegância de um filme que fascina por sua ode, em amplo espectro, à moda antiga.

Seja por seus personagens com características e relações que dão pano pra manga para diversas reflexões psicanalíticas, pelo andamento sereno da narrativa, pela boêmia e certeira trilha sonora de Jonny Greenwood ou pela fotografia de noites frias, azuladas e luxuosas tal como aquelas registradas por Vittorio Storato em O Conformista, de fato, há muito em Trama Fantasma que o aproxima do vistoso cinema americano posterior à Segunda Guerra e das charmosas produções europeias de mais de quarenta anos com seus devidos e reconhecíveis elementos que fazem esta obra se aproximar de clássicos que Hitchcock fez em seus primeiros anos na América. Assim, apesar de atribuir uma vaga ideia de que se trata de uma história de suspense macabro (ainda mais julgando seu título e o soturno comportamento daqueles que regem a Casa de Woodcock), PTA é articulado o suficiente e cria uma narrativa com sua habitual eloquência dramática e um quê de revisionista ao traçar um plausível retrato da figura da mulher da década em questão, contrariando o que tantos outros cineastas costumam apresentar em suas obras de época.

Universal Pictures/Divulgação)

Porque, mesmo sendo Reynolds (Daniel Day-Lewis) a mente criativa por trás dos vestidos luxuosos de sua grife, é a irmã deste, Cyril (Lesley Manville), que gerencia a casa e talvez a única capaz de aturar toda a excentricidade de seu irmão a ponto de dispensar as namoradas do costureiro com uma frieza a nível "profissional". Figuras de trajes sempre em voga, porém com rostos nitidamente envelhecidos, os irmãos Woodcock jamais se permitiram o matrimônio por se sentirem acossados dada uma velha superstição quanto ao destino de costureiros em sua tarefa de fazer os mais belos vestidos de noivas; no entanto, quando Reynolds encontra em uma garçonete imigrante de nome Alma (Vicky Krieps) um manequim vivo próximo da perfeição enquanto a própria nunca se deu o luxo de valorizar o próprio corpo, entre o criador e sua nova musa surge uma incomum e temperamental relação que se enreda a cada vez que Alma se fascina por este mundo da moda em busca de um reconhecimento amoroso de Reynolds, quase sempre esquivo nesse tópico. Assim, quanto mais o costureiro sufoca a garota tratando-na como uma boneca de pano, mais Alma se sente disposta a conquistar aquele homem e seu devido espaço na Casa de Woodcock assumindo uma presença intoxicante.



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