quinta-feira, 26 de março de 2015

Vício Inerente | CRÍTICA


O novo longa de Paul Thomas Anderson (Magnólia, Sangue Negro) é, no mínimo, uma celebração de toda a cultura que embalou o miolo do Século XX. Vício Inerente (Inherent Vice), adaptação do livro homônimo escrito por Thomas Pynchon, tem de tudo um pouco: hippies, sexo, drogas, rock n' roll, o groove na música da década de 1970, tramas policiais, exploitation e uma história de detetive típica do Cinema Noir. Em suma, uma cômica história que não é assim tão fácil de acompanhar.


Com um jeito largadão parecido com o do "Dude" de O Grande Lebowski, Larry "Doc" Sportello (Joaquin Phoenix) passa quase todos os dias à base de maconha e, no tempo livre, dedica-se no ramo de detetive particular. Aparentemente, seu êxito em investigação é tão conhecido por Gordita Beach que ele recebe a inesperada visita de uma ex-namorada, a irresistível Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterston), que joga seu charme e convence Doc a investigar o paradeiro de seu atual amante, o empreiteiro imobiliário Mickey Wolfmann (Eric Roberts).




A partir de cada pista, mais Doc parece descobrir que está no meio de uma grande confusão, passando por uma "casa de massagens" e logo depois preso pelo LAPD, tendo que aturar o detetive "Pé Grande" Bjornsen (Josh Brolin). Claro que a jornada de Doc estava longe de se encerrar. Novas pistas se acumulam, assim como um mistério ainda maior: Wolfmann viajou com Shasta ou foi assassinado? Por que o músico Coy Harlingen (Owen Wilson) deixou a família de lado e também sumiu? Tudo parece convergir para uma coisa em comum: Canino Dourado.

Enquanto as aventuras de Doc se tornam cada vez mais insanas e sujeitas a boas risadas, nos deleitamos com o ótimo trabalho estético da fotografia e do design de produção. Filmado em 70mm (vejam no cinema com a maior tela possível!), a resolução é incrível e transpõe para a tela todo aquele universo tão politicamente incorreto e colorido da contracultura em 1970 com um leve toque insaturado decorrente das películas da época e cenas noturnas que, entre neblina e penumbra, consequentemente, apresentam bastante granulação, algo que confere até uma sensualidade maior para as cenas. Para os saudosistas da época, há um capricho inestimável com a cenografia e seus objetos com design arrojado que procuram fugir da monocromia, assim como o figurino dos personagens com uma gama de tecidos e cores refletindo a psicodelia de seus anos. Destaque para a impagável cena das gravatas.


Normalmente bastante competente, mas pouco carismático na maioria de seus trabalhos, a atuação de Joaquin Phoenix é uma das mais divertidas de sua carreira e faz mais do que pede seu personagem com tantas caras e bocas e, o melhor de tudo, seus infames disfarces muito bem incorporados pelo ator. As figuras mais conhecidas, como Reese Witherspoon, Benicio Del Toro, Owen Wilson e Josh Brolin fazem aparições mais pontuais, ainda que os dois primeiros sirvam mais como bons suportes para a trama, o restante também possui passagens divertidas e desenvolvem bem seus personagens cheios de mistérios.

O que compromete Vício Inerente, no entanto, são seus excessos de incidentes. Seguindo o esquema de "uma coisa leva à outra", chega a um momento no filme em que não sabemos mais qual é o foco real da trama, considerando que a jornada de Doc toma caminhos e descobertas imprevisíveis, conduzidos pelo elenco bem humorado. Longe de ser frustrante, o roteiro de Paul Thomas Anderson se mostra bastante versátil e coerente (loucuras e muitos tragos a parte), diferente do melancólico e vencedor do Oscar O Jogo da Imitação.



Acompanhado de uma ótima seleção de músicas da década, que mergulham e emergem da diegese, além das boas composições de Jonny Greenwood evocando um autêntico film noir setentista, parece que não é de todo o mal viver sob uma considerável dose de paranoia ou ter que aturar tiras sisudos, quando tudo o que mais se quer é reencontrar o verdadeiro amor.


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