sábado, 6 de maio de 2017

A Autópsia | CRÍTICA


Para muita gente, necrotérios aspiram sensações horripilantes só de ouvir falar e imaginar o que se passa por lá – e boa parte dessa fama repugnante foi (e ainda é) impulsionada pelo cinema e por programas de televisão, sejam eles de ficção ou jornalístico-policiais. Reforçando esse imaginário, A Autópsia chega com um caso que arrepia logo nas primeiras impressões com sua perícia bem conduzida, embora munida de todos os clichês possíveis do gênero.


O corpo de uma indigente é encontrado no porão de uma casa e a polícia tenta encontrar alguma relação entre a moça e os demais corpos encontrados em situação pior nos níveis superiores do local. Para tanto, o xerife da cidade (interpretado por Michael McElhatton) confia na expertise de Tommy Tilden (Brian Cox), um médico legista que comanda o necrotério e crematório erguido pela família há quase um século e que é assistido pelo seu único filho, Austin (Emile Hirsch) que, apesar de toda a companhia dedicada ao pai, não vê a hora de sair dali e seguir uma nova vida a dois com a namorada. Uma ambição que é sempre adiada pelo mesmo, ainda mais quando a necrópsia da "Jane Doe" leva muito mais tempo do que o esperado. Sem sinais superficiais de agressão, a não ser pelos pulsos e tornozelos fraturados, a cada etapa o corpo da moça vai se revelando um verdadeiro enigma para a dupla, onde cada evidência encontrada põe o ceticismo e a ciência em cheque.



Seguindo à risca as regras do suspense e do terror, embora não as eleve a um patamar inédito, o norueguês André Øvredal (O Caçador de Troll) faz uma boa direção na primeira metade de seu filme, ainda mais quando Cox e Hirsch se portam carismáticos em uma dinâmica que nos atiça a curiosidade pela área e, diante disso, a câmera não poupa detalhes viscerais de corpos e órgãos postos à mesa em contraposição às músicas alegres tocadas no rádio. Intriga também a transição para o sobrenatural com suas novas revelações dignas de calafrios (e a trilha ajuda muito nisso) e um sino que os legistas jamais imaginariam soar. Uma pena que Øvredal não se apodera da filmadora que os Tilden usam para relatar cada dissecação, fornecendo, assim, uma nova e arrepiante perspectiva dos eventos ouvidos quando os personagens principais estão fora de cena.

A Autópsia (The Autopsy Of Jane Doe) pode ser um bom programa de terror para aqueles pouco familiarizados com o gênero, vítimas do eficiente marketing que usou as melhores imagens da produção e assim repercutiu a pergunta sobre a misteriosa personagem. Para os peritos no Cinema de Horror, o laudo já não é tão agradável: uma overdose de jump-scares baratos com uma trilha de acordes estridentes, quedas de energia elétrica em momentos tensos que impedem fugas, vultos que aparecem refletidos em superfícies espelhadas, além de um tedioso drama familiar que serve apenas para motivar os personagens e até as ações finais são previsíveis. Para alívio dos amedrontados ou dos descontentes, o filme conta com uma duração breve (menos que noventa minutos) e alguns pares de artifícios interessantíssimos que prendem a atenção até sua última cena, quando finalmente se desprende da banalidade do real.



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