quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Sicario: Terra de Ninguém | CRÍTICA


Há uma atmosfera agonizante na fronteira entre o México e os Estados Unidos, um perímetro de horror diário que está longe de acabar, tudo porque o narcotráfico é uma hidra de muitas cabeças cuja principal há muito se embaralhou, mas é feito o possível para propor segurança, nem que isto custe tornar as cidades em verdadeiros campos de guerra. Em Sicario: Terra de Ninguém, existe o desespero em tentar sobreviver enquanto se presencia a tênue linha entre o bem e o mal.

Seguindo as pistas de um sequestro de pessoas por traficantes mexicanos, a agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt) conduz uma operação com um batalhão especial em uma área residencial do Arizona, mal sabendo que encontraria uma apavorante cena, um cenário de horror que leva os chefes do FBI a deduzirem se a agente se mantém apta para prosseguir com a missão. Incumbida de uma nova força-tarefa, tutelada pelos contrastante Matt Graver (Josh Brolin) e o soturno Alejandro (Benicio Del Toro), Macer parte para o Texas, segundo eles, sem o seu prestativo parceiro Reggie (Daniel Kaluuya) e sem conhecer os procedimentos da missão, o que aumenta ainda mais sua desconfiança acerca de seus novos companheiros. Quando se dá conta, Macer percebe que está cruzando a fronteira com o México e partindo para a violenta cidade de Juarez.



A cada filme que lança, mais o diretor Denis Villeneuve é visto como um novo mestre do suspense. Um título ousado ou prematuro demais? Talvez, mas há de se reconhecer o talento que Villeneuve possui ao apresentar os personagens do roteiro de Taylor Sheridan e inseri-los numa atmosfera de insegurança em passagens graduais que, em meio a sagacidade da composição dos planos, potencializa a humanidade tanto de Macer, com seu banho pra lá de purificador ou o medo (mesmo que apta) em ser deixada sozinha no carro durante uma força-tarefa, como a apresentação de um determinado personagem mexicano que vem a ter uma importância maior no terceiro ato. Pai, marido e morador numa casa modesta na periferia de uma cidade do lado mexicano da fronteira, quem é este homem, interpretado por Maximiliano Hernández? Se sua cena/caracterização inicial leva a crer que o sujeito pode ser o vilão da trama, é uma surpresa perceber como o personagem nos faz gerar um misto de empatia, compaixão e pena, no mínimo.

Mostrando-se habilidoso também ao coreografar boas e impactantes cenas de ação, Villeneuve encontra no compositor Jóhann Jóhansson e Roger Deakins, mestre da direção de fotografia, parceiros habilidosos para expandir a tensão pretendida. Econômico, Jóhansson deixa a pomposidade de lado e toca um tema distorcido, brutal, que se intensifica mediante o alcance do objetivo da força-tarefa ou que procura refletir o terror urbano das ruas de Juarez. Novamente, mesmo que isso seja habitual, Deakins entrega imagens fascinantes e faz arte com as cores do crepúsculo em meio a região árida, fazendo dessa "terra de ninguém" (assim diz o subtítulo nacional) um reduto para as almas das vítimas do tráfico, muitas vezes até com "fogos de artifício". Não por menos, Villeneuve e Deakins também sabem trabalhar com o "ruído", aquilo que nem sempre é bonito aos olhos. Em meio a tantos planos aéreos, mas igualmente informativos, não faltam planos que nos aproximam dos personagens, deixando-os pareados (com exceção de Allejandro), e as cenas noturnas granuladas, com destaque para a sequência em "visão noturna" que deixa a missão executada ainda mais atrativa.


Se Josh Brolin e Benicio Del Toro pareciam atores batidos para os personagens que representam, é curioso notar como a dupla consegue trazer novidade, contrariando uma suposta previsibilidade dada por seus papeis anteriores. Enquanto o primeiro parece relaxado (até demais), é Benicio que amedronta, motivado por um passado irreversível e que o tornou num lobo solitário, um sicário que joga onde bem entender, tudo para cumprir sua vingança pessoal. Uma trágica história que promete render mais um filme, segundo a imprensa lá fora.

No meio desses conflitos, fica a impressão de que Emily Blunt é ofuscada, que sua Macer não é provida de coragem. Mas quando se entra num túnel escuro, mantendo seus ideais coerentes entre poucos colegas de confiança, sair do lugar e se manter uma policial durona não é nada comparado a guardar um pouco de esperança e temer pela própria vida. 




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