quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lucky | CRÍTICA


Harry Dean Stanton foi, na maioria de seus tantos papéis em mais de sessenta anos de carreira, o típico sujeito pacato designado a ficar em segundo plano até que cineastas de renome como Ridley Scott (Alien: O 8º Passageiro) e John Carpenter (Christine, O Carro Violento) passaram a ver um potencial no ator que só mesmo o alemão Wim Wenders aproveitaria por completo no cultuado Paris, Texas, em 1984, imortalizando de vez o semblante melancólico e silencioso de Stanton que, do deserto texano à costa oeste californiana, surgia com uma força expressiva maior do que qualquer discurso verbal marcante. De lá pra cá, o ator firmou parcerias com outros diretores e se manteve atuante, lúcido e sempre com um cigarrinho na boca até falecer aos 91 anos no dia 15 de setembro, o que, agora, faz de Lucky uma boa e singela homenagem póstuma a um dos homens mais humildes do cinema americano.

Dirigido por John Carroll Lynch (ator conhecido por seus personagens em Fargo, A Ilha do Medo e Fome de Poder) a partir do roteiro dos estreantes Logan Sparks e Drago Sumonja, o filme confere as mais diversas interpretações para o seu título desde o início de sua projeção e que tendem a ser trabalhadas durante a narrativa, tanto em seu sentido figurado como no real: Stanton é Lucky, um veterano da Marinha que serviu em missões no Oceano Pacífico e que os caminhos da vida lhe guardaram um cantinho para viver na árida região do Meio-Oeste americano, afortunado pela longevidade, benquisto pela vizinhança e prático por dispensar hábitos luxuosos – Lucky só quer saber de seguir sua rotina de higienização e praticar ioga, tomar seu copo de leite, ir para a cafeteria local e quebrar a cabeça com as cruzadinhas no jornal, voltando para casa a tempo de não perder os programas bregas de jogos da sorte na TV. Até mesmo quando Lucky desmaia, o laudo do médico não poderia ser mais positivo: apesar do cigarro, a saúde do velho homem está ótima, só que lhe parece o exato momento em que o peso da idade lhe dá um baque a ponto de questionar o que é a realidade e, a partir daí, romper com os paradigmas da rotina nesse que se entende ser o limiar de sua vida.


Dos papos brejeiros e furados nos balcões da cafeteria, do mercadinho ou do bar a noite com os amigos mais velhos ou ainda cantar uma música mariachi a plenos pulmões, Lucky faz uma celebração da vida enquanto se permite refletir sobre perdas e abnegações frisando que ser idoso não significa tocar seu tempo restante à base da rabugice para com os outros, principalmente aqueles mais jovens e de outras etnias. Assim, Carroll Lynch nos guia nos passos de Lucky pela cidadezinha descobrindo uma coisa nova aqui e acolá sempre com bom humor, coisa que aumenta com a ótima participação de David Lynch e a perplexa busca de seu personagem por um cágado de estimação tão velho quanto o protagonista e que decidiu, diz-se, tomar um rumo próprio. Sem firulas na sua estética na composição dos planos, apesar de picotá-los além do necessário, o diretor faz uma boa estreia no cargo e é visível que o elenco, tanto os veteranos (que inclui a presença de Tom Skerritt, que contracenou com Stanton em Alien) quanto os mais jovens, se sente à vontade enquanto existe um flerte com a fantasia bucólica dentro dos limites.

Divertido pelo seu evidente tom semibiográfico e complementar ao arco observativo e espiritual do ator na terceira temporada de Twin Peaks, Lucky é recomendado para todos aqueles que sempre nutriram simpatia por Harry Dean Stanton que, certamente, diria que partiu cedo demais.



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