quinta-feira, 8 de junho de 2017

A Múmia | CRÍTICA


Houve um tempo em que os Monstros dominaram as telas do Cinema e proporcionaram inúmeras sessões de espanto e divertimento para o público que, a partir daí, pegou gosto pelas fitas de terror, de fantasia e até mesmo de ficção científica. Desse apreço que se tornou uma estimada nostalgia, vieram gerações de cineastas que mudaram a forma de fazer uma produção de gênero, melhorando seus efeitos para espectadores mais exigentes enquanto o grotesco e o místico das histórias eram ofuscados por um tipo de horror sobrenatural propenso a sucessivos atos de violência. Agora, disposta a entrar no jogo de franquias onde reinam super-heróis, a Universal Pictures apresenta seu Dark Universe com uma nova versão de A Múmia que, apesar de divertida, paga caro ao se render aos óbvios e manjados modismos dos blockbusters atuais.


Presumindo que o espectador de 2017 requer o máximo de barulhentas atrações para não se dispersar durante a sessão, o roteiro de David Koepp (Inferno), Christopher McQuarrie (Missão: Impossível - Nação Secreta) e Dylan Kussman acresce urgência à aventura do agente americano Nick Morton (Tom Cruise) e seu desbocado colega Vail (Jake Johnson, série New Girl) onde, juntos, seguem as pistas do mapa roubado da egiptóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis) que, supostamente, levará a uma tumba de uma princesa egípcia na terra de ninguém que hoje é o Iraque. Do Oriente Médio até a Inglaterra, onde se passa o longo restante da narrativa, o diretor Alex Kurtzman parece acreditar que a ação precisa ser tão superlativa quanto os longas que assinou como co-roteirista (O Espetacular Homem-Aranha 2 e Transformers, por exemplo) e, se tais cenas são conduzidas com segurança levando em conta um aprazível entretenimento em grande escala, por outro lado, falta aos personagens o mesmo tipo de progressão narrativa, caindo na velha maldição de motivações superficiais, piadas repetitivas e diálogos não tão bons assim.



Entretanto, este A Múmia possui um pano de fundo fascinante, ainda mais quando discorre sua mitologia na primeira (e senão a melhor) parte do filme. Com sua voz retumbante, Russel Crowe interpreta o ambíguo Dr. Jekyll e narra a história da princesa Ahmanet (Sofia Boutella, de Kingsman e Star Trek: Sem Fronteiras) cuja trama de vingança não só remonta ao Egito Antigo e ao pacto com o maligno deus Set, como vem a envolver o período das Cruzadas, Cavaleiros Templários enterrados no subsolo londrino e, culminando nos dias atuais, o Estado Islâmico e sua desprezível empreitada em destruir os ícones das civilizações do passado. A criatividade não cessa nem quando os personagens chegam aos gabinetes da Prodigium, onde a produção caprichou nos detalhes ao situar elementos visuais de suas vindouras sequências sem precisar atirar referências a todo instante e, para aqueles que esperam encontrar alguma conexão mínima com a trilogia estrelada por Brendan Fraser, fiquem de olhos atentos para um livro que cai durante uma exagerada briga. Destaque também para as belas cenas rodadas no deserto, em específico, as cenas do passado de Ahmanet.



A julgar pela divulgada sequência da queda do avião, é inevitável dizer que o filme parece um episódio sobrenatural de Missão: Impossível, com a enérgica hiperatividade de Tom Cruise se mantendo numa constante refletida não só na disposição em atuar e no feitio de cenas cada vez mais difíceis, mas por colocar o astro como o verdadeiro centro das atenções que vai além da pancadaria em mortos-vivos e escapar de colisões com automóveis sucessivamente. A trama reitera que Ahmanet precisa de Morton para concretizar sua maldição, já Dr. Jekyll tem seus planos para o destino do mercenário que, por sua vez, tem uma cíclica dívida vital com Jenny Halsey. Assim, é lamentável ver que, numa época em que o desenvolvimento de personagens femininas ganha mais expressividade (e retorno financeiro para os estúdios), isso não ocorre mesmo quando o gender-swap do monstro era um dos maiores atrativos do longa, relegando a múmia a uma vilania indigna de compaixão que, se por um acaso é sentida, só acontece quando a egiptóloga menciona que a princesa foi deliberadamente excluída dos registros históricos faraônicos e sua hegemonia masculina – e nem mesmo um mínimo de redenção é concedido a moça milenar! Por essas e outras, há de se recear quando o próximo título da série será A Noiva de Frankenstein...

Mesmo com todos os seus defeitos, A Múmia (The Mummy) ainda consegue proporcionar uma aventura instigante onde cada incidente leva ao outro e atiça a curiosidade pelo futuro do Dark Universe, por mais desinteressante que seja o clímax do longa, além do cansativo tom sisudo que tenta ser amenizado com uma galhofa pouco funcional. Enfim, se o Dr. Jekyll acredita que o mal possa ser curável, que os realizadores tratem de remediar os erros evidentes ou é melhor que os demais Monstros permaneçam em seus lagos, tumbas, cavernas e caixões.



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