quinta-feira, 21 de julho de 2016

Life - Um Retrato de James Dean | CRÍTICA


Muito antes de surgirem os ídolos teen que se reciclam ano a ano na cultura pop, a Hollywood da Era de Ouro dos estúdios vivia do estrelato de galãs e divas que, pouco a pouco, deixavam de dialogar com a geração adolescente pós-guerra que efervescia e precisava de um novo astro para se espelhar. Se a rebeldia proposta pelos papéis de Marlon Brando já demonstravam indícios do que o público jovem queria (se) ver na tela, foi num promissor rapaz brejeiro que os produtores pareciam ter encontrado um novo estilo de vida para ser vendido: um "rebelde sem causa" que é projetado com uma abordagem errônea neste Life - Um Retrato de James Dean.

Dirigido por Anton Corbijn, Life não é exatamente uma cinebiografia que detalha a breve, mas não menos esquecível, passagem de James Dean no cinema. Antes sequer de conhecermos o astro que aqui é encarnado por um sonolento Dane DeHaan (O Espetacular Homem-Aranha 2), a luz vermelha de uma sala de revelação apresenta Dennis Stock (Robert Pattinson), um fotógrafo da revista Life que aspira o reconhecimento de suas fotos mais autorais com paisagens ou momentos existencialistas, mas por ora sobrevive (e isso inclui a pensão que manda para o filho que deixou em Nova York) fazendo a cobertura das glamurosas pré-estreias e festas que acontecem em Los Angeles. O roteiro de Luke Davies sugere, então, que foi numa das festas de lançamento de Johnny Guitar que Stock enxergou no solitário Dean uma chance de consolidar sua carreira em conjunto com a do jovem ator, que já era sondado para protagonizar aquele que seria o seu filme mais conhecido.


Em sua reconstituição de cada incidente que levou Stock a fotografar Dean em locações que vão de Nova a York a Indiana, o resultado que se vê na tela é, pra início de conversa, decepcionante. Com exceção das cenas que envolvem os bastidores cinematográficos, algo que é sempre interessante de se assistir logo quando se dispõe a apresentar uma sessão do Actors Studio e personificações de Elia Kazan, Nicholas Ray e Jack Warner (Ben Kingsley), figuras importantes para aquele período do Cinema Americano, chega a ser angustiante acompanhar a jornada melancólica da dupla que surge não menos depressiva, aliado ao clima predominantemente nublado e frio que a diretora de fotografia Charlotte Bruus Christensen (A Garota no TremA Caça) registra em cena. Somando ao fato de que o roteiro não colabora e investe em arcos familiares pouco empáticos e gratuitamente vexaminosos, vide uma cena particular de Stock e filho, a atuação de Dane DeHaan é tão carregada de trejeitos e uma fala que se consiste em sussurros que chega a denegrir a imagem do ator original. Quanto a Robert Pattinson, se aqui havia uma chance de o ator se sobressair e entregar uma performance com um mínimo de sensibilidade, eis que suas caras e bocas o traem, dando a impressão de que nunca leva seus personagens a sério (sem contar Edward Cullen, é claro).



Para quem dirigiu Control, o elogiado filme que retratou a breve vida do líder do Joy Division (tido como um ídolo para alguns jovens crescidos nos anos 80), Corbijn deixa a desejar ao se esquecer de reverenciar o legado fotográfico da influente revista (a produção do filme comete um deslize ao mostrar em cena uma cópia velha da edição com o ensaio original) e ao conter a rebeldia de um astro em ascensão reduzido a bebedeiras, vários cigarros fumados e uma dualidade sufocante que nunca fica clara, sem contar seu injustificável tom sombrio contrastando com as produções da época que recorriam cada vez mais ao Technicolor e semelhantes, senão o próprio Juventude Transviada

Só resta a dúvida se o retrato em si seria digno de James Dean ou de uma juventude tão insegura quanto sessenta anos após a prematura morte do jovem astro.



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