quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ouija - Origem do Mal | CRÍTICA


Da tentativa de contatar os espíritos na busca de respostas após a perda de um ente querido ou, simplesmente, para pregar sustos em colegas medrosos, não faltam casos de assombrações envolvendo o tabuleiro Ouija. Histórias que, embora mantenham a descrença dos céticos até hoje, fizeram do jogo mais do que um mero adereço em tantos filmes de terror que costumam repetir as mesmas fórmulas para uma audiência que se contenta pouco, afinal, levar sustos não é de todo o mal às vezes. Apesar de se render aos clichês do gênero e pouco aproveitar seu elenco até que esforçado, Ouija - Origem do Mal chama a atenção pelos detalhes de seu contexto.


Depois de flertar com uma espécie de fantasia sombria no deprimente O Sono da Morte, o diretor Mike Flanagan e seu co-roteirista Jeff Howard fazem deste Ouija uma história desapegada de fatos reais (apesar das breves semelhanças com Invocação do Mal 2) na tentativa de estabelecer uma prequência ao filme visto em 2014 produzido por Michael Bay e Jason Blum (A Visita, Sobrenatural: A Origem, Whiplash). Na trama, situada numa ensolarada Los Angeles de 1967, Alice Zander (Elizabeth Reaser) tenta a vida como vidente após perder seu marido há pouco tempo, precisando cuidar de suas duas filhas, a adolescente Lina (Annalise Basso) e a pequena Doris (Lulu Wilson), ao passo em que o espectro da hipoteca assola a porta da sua casa. Mas Alice, ao contrário do que se pensa, de nada tem contato com o plano astral e suas sessões espirituais pagas se consistem de efeitos práticos comandados mui discretamente por ela e as meninas, enganando seus clientes tão abatidos (ou desconfiados). Isso até que Zander decide comprar o infame tabuleiro para renovar sua atividade, no entanto, suas "armações" não serão mais necessárias.



Não seria surpresa dizer que Ouija - Origem do Mal não é dominado por coisas inéditas, até porque o roteiro abraça o que há de mais convencional nesse tipo de terror: a casa com o porão suspeito, a adolescente de cabelos rubros descobrindo seu primeiro amor, a caçula com rosto angelical, um padre não tão casto assim (vivido por Henry Thomas, o Elliot de E.T.) e por aí vai, entregando passagens ora interessantes e divertidas, como a própria revelação dos "truques" da família e a cena da primeira sessão do jogo entre os adolescentes com as ondulações fantasmagóricas da piscina refletidas na parede do quarto. E se o filme precisa botar medo, alguns pares de perguntas macabras do espírito e cenas assustadoras no meio do caminho dão conta do recado, embora recorram aos habituais e sinistros acordes da trilha sonora.

Dizem que fazer um filme de terror é um bom começo para se entender a estrutura narrativa e sensorial em sua relação com o público, algo que não quer dizer que a obra precisa conter rigorosamente os mesmos arquétipos, cenários e artefatos comuns entre tantos filmes, por mais tentador que seja para o realizador aplicar em cena os elementos que tanto louva em sua cinefilia. É uma pena que, mesmo não sendo novatos no gênero, Flanagan e Howard não resistam à tentação e entreguem um terceiro ato completamente desprovido de novidade e se rendendo aos maus clichês beirando ser um slasher film de espíritos, agourando todos os bons conceitos que vingaram até ali, deixando a carismática mãe vivida por Reaser perdida no súbito rodízio de protagonistas.



Diante disso, ressalto o curioso argumento da especulação sobre experimentos de ocultismo pelos nazistas, algo que, de fato, poderia ser levado adiante, sem se esquecer da fotografia surpreendente de Michael Fimognari (também vindo de O Sono da Morte) que trata de ampliar a tensão dos planos utilizando o split focus (a aproximação de elementos relativamente distantes entre si) e leves zooms que, além de servirem como artifício narrativo, remontam ao estilo técnico de filmagem da época retratada. Entretendo e assustando quando convém, para quem não pede de mais, é possível que Ouija - Origem do Mal (Ouija - Origin of Evil) seja um terror feito para (des)contrair os ânimos. Se poderia ser um inesquecível título do gênero, é capaz que nem os espíritos do tabuleiro saberiam responder.




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