sexta-feira, 18 de maio de 2018

Paris 8 | CRÍTICA


Fazer cinema, em qualquer circunstância, não é uma coisa que se realiza na mesma proporção da minutagem de cada filme assistido. Trata-se de um processo dispendioso além de seu exercício artístico entrelaçado com deveres burocráticos para que as coisas aconteçam em cena – e, mesmo que seja algo cansativo, a vontade em ver as histórias sendo contadas com as próprias mãos falam mais alto. Certamente, uma paixão que já foi abordada dezenas de vezes em filmes de tonalidades mistas, mas são poucos os exemplos que retratam os prazeres e a enxaqueca que é estudar Cinema em uma faculdade.

Com vivência de sobra nesse meio acadêmico, o cineasta Jean-Paul Civeryac faz de Paris 8 (Mes Provinciales, no original) um estudo bastante condizente com a realidade dos jovens estudantes franceses que se despedem de familiares e amores no interior da França para tentar a sorte no coração da Cidade Luz, mas antes e depois de finalizarem seus primeiros curtas-metragens, muitos precisam lidar com questões de ego, de ideologias e até mesmo de inveja. Escrita por Civeryac, a trama circunda Étienne (Adranic Manet), um jovem que ingressa na Sorbonne-Paris 8 para iniciar seus estudos uma vez que o programa do curso volta-se mais para a prática do que a teoria, tão logo fazendo amizade com Jean-Noël (Gonzague Van Bervesselès) e Mathias (Corentin Fila), este último dono de fortes convicções e um defensor nato do antigo e belo realismo francês – o que o faz condenar a atual produção do país como obras vulgares. Entre experiências pessoais e profissionais, além de momentos mundanos como um cineclube em casa com a pequena tela do computador exibindo um grande clássico, nesse ponto, o diretor não poderia ter diálogo melhor com o espectador da mesma geração dos rapazes que filma.

CineArt Filmes/Divulgação)

Inflado de ótimas asserções literárias e sobre o que é o Cinema na visão de seu auteur – transposta para as falas dos personagens e com um destaque para a aula sobre cineastas italianos –, por outro lado, o filme acaba caindo no cacoete dos recorrentes temas das produções acadêmicas com um marasmo de situações que, se por um lado faz o espectador se interessar e torcer pelo desenvolvimento dos filmes que Étienne e Jean-Noël tentam produzir, as mais de duas horas de projeção acabam se dispersando para subtramas sombrias e até novelísticas, tal como a obsessão do protagonista por garotas (estranhamente, uma motivação maior do que ser cineasta) e o depressivo sumiço de Mathias.


Contando com uma admirável fotografia tratada em preto e branco, embora não haja uma clara estipulação de mise-en-scène, Paris 8 infelizmente pode não ser uma obra direcionada a todos os públicos, mas se faz um convite certeiro para todo bom cinéfilo em descobrir uma visão de mundo que por vezes o circuito comercial e as plataformas de streaming não colaboram no processo. Para estudantes e realizadores, dos iniciantes aos consagrados, a obra se torna um espelho para a autorreflexão; um limiar para reconsiderar ou se apegar às convicções que os motivaram nessa carreira que muitos não hesitam em dizer que é difícil, mas não negam o prazer de passar vários minutos vendo uma história bem contada.



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