terça-feira, 13 de março de 2018

Maria Madalena | CRÍTICA


Filmes bíblicos sempre estiveram lado a lado com a História do Cinema, ainda mais quando produções religiosas do início do século XX foram os precursores do que hoje entendemos o épico como um gênero e que ainda se mostram como um segmento com forte apelo de público. Entre dezenas de produções dedicadas a contar didática e moralmente quase todas as passagens das "Sagradas Escrituras" com locações, figurinos e adereços verossímeis, houve também casos de pares de cineastas de renome dedicarem sua estética e pensamento na revisão dos acontecimentos bíblicos, culminando em obras alegóricas (o recente mãe!, de Darren Aronofsky) ou ainda outras que não economizaram no sadismo (Mel Gibson e seu A Paixão de Cristo), provando aí que a releitura cinematográfica dos evangelhos não perde a sua atratividade acima de quaisquer polêmicas.


Não que Garth Davis seja um diretor consagrado e de estética marcante no pensamento de qualquer cinéfilo, mas muito da sua pegada vista no muito do mediano Lion - Uma Jornada Para Casa o faz ser um nome bem-vindo quanto à direção de Maria Madalena que, só pelo seu título, já busca ser um limiar na representação da personagem bíblica tão preconizada pelo decreto do Papa Gregório há mais de mil anos. Novamente em parceria com o diretor de fotografia Greig Fraser (Rogue One), Davis demonstra uma sensibilidade plausível ao retratar a Palestina daquela época de forma a romper com o que tantos filmes religiosos dogmatizaram em termos cinematográficos: saem de cena os tons quentes típicos de locações desérticas e o que se vê é uma paleta de cores frias de acordo com os dias nublados e ventosos em regiões relevadas pelas quais os tantos aldeões, pescadores e lavadeiras passam em condições rudimentares dada a opressão do Império Romano – e, quando Jesus aparece ao povo, os realizadores se esquivam do velho clichê de retratar Cristo contornado com uma luz dourada a fim de reforçar sua divindade. Pelo contrário, o Jesus de Joaquin Phoenix encontra-se a nível das pessoas que circundam-no por onde passa com seus apóstolos, um igual que faz Maria de Magdala (Rooney Mara) se aproximar do homem considerado Messias.

Universal Pictures / Divulgação)

Com roteiro escrito pela dramaturga Helen Edmundson e Philippa Goslett, é interessante notar como Maria Madalena se inclina mais para uma vertente social e espiritual do que tipicamente religiosa, o que faz com que boa parte da narrativa se empreenda a demonstrar a rotina dos populares enquanto ainda são penitentes às tradições judaicas, seja por orações nas sinagogas ou por cânticos dos Salmos durante batismos. Nisso, as roteiristas pontuam Maria como uma mulher que busca fugir do que é comumente imposto às outras principalmente por patriarcas – ao invés de estar no lar tecendo e parindo filhos, Madalena preocupa-se com o manuseio das redes de pesca e a ideia de casamento lhe parece ser um sinônimo de uma vida subjugada. Vestida com leveza pela figurinista Jacqueline Durran (indicada ao Oscar por A Bela e A Fera e O Destino de Uma Nação) com peças de algodão e linho brancos e detalhes tímidos que a distanciam de tantas versões que a pintavam como uma cigana sensualizada, Rooney Mara é uma força positiva perante toda a truculência da família de sua personagem e, posteriormente, entre as discordâncias que surgem com os apóstolos de Cristo, crentes demais de que a promessa do Reino viria de forma material e, senão, libertária. O Pedro de Chiwetel Ejiofor e o Judas de Tahar Rahim recebem aqui motivações construídas por um passado que refletem em suas ações e personalidades fortes já conhecidas, sendo curioso notar a boa decisão dos cineastas em escalar o coro dos apóstolos com homens bastante simplórios (notem as roupas sujas e surradas), jovens e velhos de etnias mistas, o que faz com que tal universalização reflita no alcance dos ensinamentos de Cristo por todo o globo hoje, apesar da ironia de ter um negro logo na encarnação daquele que viria a ser o fundador da Igreja Católica.

Universal Pictures / Divulgação)

Empregando planos amplos para representar a dimensão desoladora do país enquanto enquadra Jerusalém a distância onde seu templo é a coisa mais ostensiva do local, sem muitas pretensões eloquentes, Garth Davis entrega uma boa leitura da narrativa e assim procura condenar os falsos e abusivos "rituais" como desencapetamentos (ainda vistos por aí) e o sacrifício de animais, rendendo closes impactantes mediante toda a tensão do incidente o ataque de Jesus aos vendilhões, ao passo em que, por outro lado, a dupla de roteiristas seja claudicante no desenvolvimento de seu terceiro ato condensando os eventos já conhecidos da Paixão de Cristo, o que faz com que Phoenix por vezes pareça amenizada ou até desinteressado no andamento da história. É uma pena também que a trilha do recém-falecido Jóhann Jóhannsonn deixe a a experiência mais atordoante do que o necessário com seus sons reverberados em busca de um misticismo distante, porém onipresente.

Entretanto, para quem busca um material histórico distinto e modestamente caprichado, a revisão dos fatos levantada por Maria Madalena (Mary Magdalene) já é o suficiente para instigar um novo olhar para o Cristianismo acima de decretos eclesiásticos ou de mais especulações fomentadas por Dan Brown para que isso aconteça. Para quem procura renovar a fé em suas crenças com o filme, os atos de caridade e a sequência do batismo ao som de cânticos são passagens que arrepiam de tão bonitas, instigando a sempre difícil tarefa do amor ao próximo. 



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