domingo, 26 de novembro de 2017

David Lynch: A Vida de Um Artista | CRÍTICA


De tempos em tempos, tenho o costume de fazer o que chamo de "intensivos de filmografias" de alguns diretores prestigiados e, assim, ver e aprender cada dia mais com as obras de, por exemplo, Sergio Leone, Jean-Luc Godard, Abbas Kiarostami e Alfred Hitchcock, além de tantos outros e outras que surgem num interesse repentino. O que, de certa forma, me deixa numa incômoda sensação de que há muito deveria ter procurado assistir às peculiares obras assinadas por David Lynch além de seus mui cultuados Veludo Azul e Cidade dos Sonhos, uma vez que hoje o tenho como uma das minhas influências mais significantes quando se trata da minha contraparte de realizador. Por sorte, a estreia da terceira temporada de Twin Peaks me fez conhecer não só o clássico mistério sobre o assassinato de Laura Palmer, como procurar os primeiros filmes assinados por Lynch e até os seus curtas, que vão do bizarro até luxuosos comerciais para grifes estrelados por renomadas atrizes como Marion Cotillard. Num ano em que o nome do cineasta voltou merecidamente à tona, assistir ao documentário David Lynch: A Vida de Um Artista se faz obrigatório como essencial para entender – e se identificar – com uma mente inquietamente brilhante.

Dirigido por Jon Nguyen em co-direção com Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm (que também faz a edição), o documentário assume um caráter essencialmente observativo ao acompanhar Lynch em sua morada no alto de Hollywood Hills, onde passa a maior parte do seu tempo se dedicando à pintura de traços abstratos e materiais mistos, além de surgir no cargo de pai com sua filha mais nova, Lula, nascida em 2012. Nesse ambiente pra lá de rústico, ouvimos o intérprete do gritante agente Gordon Cole de Twin Peaks fazer um narrativo retrospecto de sua vida, desde a sua infância bem amparada pelos pais até, mais precisamente, à época em que estava prestes a finalizar Eraserhead cuja produção dispersa pouco levava a crer aonde o homem chegaria tantos anos depois. Em meio a imagens de arquivo pessoais (somando aí fotos e filmagens de família) e suas várias e bizarras telas de pintuas, Lynch relata seu testemunho particular de acontecimentos e sonhos sombrios que muito vieram a influenciar sua carreira de artista que nunca quis parar no tempo ou se ater a uma única modalidade. Tendo dito recentemente que aprendeu a nunca dizer "nunca", Lynch se porta como um sujeito que não espera a burocracia lhe dar o sinal verde para expressar o que lhe vem a cabeça ou se prender aos formatos comerciais; ele sempre correu por fora e em grande estilo.

No quesito técnico, os realizadores do documentário seguem à risca o estilo de cinema de Lynch ao se apropriar de uma fotografia contemplativa que dura o tempo que for necessário, criando a beleza através do movimento, da luz dourada das colinas californianas, do silêncio que sempre foi primordial para o cineasta, que também aprecia um som mais retumbante como é de praxe nas suas obras audiovisuais mais conhecidas.


Enquanto um memorial dedicado a quarta filha do cineasta, David Lynch: The Art Life (no original) é um material imperdível para quem foi se deliciando pelo conjunto da obra do artista e que, diferente do Agente Cooper (Kyle MacLachlan) de Twin Peaks, não pensaria duas vezes em adentrar o Black Lodge e conhecer um pouco mais dessa fascinante visão de mundo.

O documentário está disponível nas principais plataformas de video on demand do mercado brasileiro em preços variados: NOW (R$11,90); VIVO PLAY (R$ 11,90); Google Play (Compra: R$ 29,90 - Aluguel: R$9,90) e iTunes (Compra US$6.99 Aluguel US$2.99).




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