terça-feira, 19 de setembro de 2017

American Vandal (1ª Temporada) | CRÍTICA


Vinte e sete pintos são pichados nos carros de funcionários de uma escola em Oceanside. O suspeito é o bad boy Dylan (Jimmy Tatro), um garoto bagunceiro e com uma extensa lista de detenções. Além da má fama, o crime recai sobre ele por razões maiores que meras suposições: o encrenqueiro já é conhecido por desenhar o órgão e fazer brincadeiras de conotações sexuais dentro do colégio, há uma testemunha que afirma tê-lo pego em flagrante, uma das professoras tem convicção que a ação foi uma retaliação pessoal a ela (que além do desenho na lataria, tem o pneu furado) e, para piorar, o testemunho de seus amigos é contraditório e não prova onde ele estava exatamente no momento do crime. Dylan jura não ter danificado os veículos. Apesar de tantos indícios, será que existe alguma possibilidade dele ser inocente? É o que dois alunos aspirantes a jornalistas tentam descobrir gravando American Vandal, objeto-título do novo pseudo-documentário da Netflix.


A criação de Dan Perrault e Tony Yacenda mergulha na estrutura de séries de sucesso como Making a Murderer e American Crime Story para satirizar sua essência. O tom sério com que os estudantes dão para o projeto involuntária e propositalmente tem efeito contrário. A princípio, é quase impossível levar o material a sério, por mais clichê que uma piada com um pênis possa oferecer. O dinamismo do roteiro e formato encurtado (cerca de 30 minutos por episódio) ajuda no entretenimento, ainda que a narrativa, por diversas vezes, se torna redundante em exibir as mesmas sequências como forma de mastigar para o espectador a história que busca contar. É verdade que essa é uma característica documental bastante utilizada para gerar dramaticidade, mas se parece exagerada nos originais, na versão satírica parece ainda mais desnecessária.


O que torna American Vandal um programa além da diversão sem compromisso é a disposição dos realizadores em aproveitar o conteúdo que tiram sarro para mostrar a potencial devastação que uma mentira pode ter na vida de alguém. A proposta não é nada nova (vide os recentes 13 Reasons Why e Big Little Lies), mas existe uma certa provocação ambígua no texto que faz o telespectador sair da zona de conforto. Diferente da ingênua Hannah Baker ou do pequeno Ziggy, Dylan é um personagem que está a todo instante comprometendo sua moral por conta do seu comportamento estúpido e irresponsável. O que gera uma antipatia e sentimento de desaprovação da forma como o garoto leva as coisas. O curioso? Ele também se martiriza por ser tão autodestrutivo. E se você está se perguntando “Então qual é o problema dele?”, veja Dylan apenas como mais um dos inúmeros jovens de sua idade que não se encaixam exatamente no perfil “comum” da sociedade, por dezenas de razões cujas motivações não importam aqui. É um personagem relativamente complexo, que, antes de tudo, serve para questionar o público se o estereótipo é ou não o suficiente para julgar ou acusar alguém. Mostra-se irrelevante, dadas as consequências, se estudante é culpado ou inocente do ato de vandalismo. A suposta convicção é o bastante para gerar não apenas dores de cabeça, mas deformar psicologicamente a imagem que o rapaz tinha de si próprio. É possível acusar mais danos a um suspeito que o próprio autor do crime? O tipo de situação que busca revelar mais sobre quem acusa do que o próprio acusado.  Não à toa, elas são muito bem exploradas. Assim como disse Fred uma vez, “Quando Pedro fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”.


Por fim, American Vandal não veio para revolucionar, tampouco vai te fazer morrer de rir, mas suas intenções são tão genuínas que é muito fácil deixar de lado sua falta de originalidade, e aproveitar os bons momentos que proporciona. Bem satisfatórios, por sinal. Afinal, quem diria que 27 pintos pichados pudessem gerar tanta reflexão?



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