quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O Filme da Minha Vida | CRÍTICA


Não é preciso se delongar para afirmar o quão talentoso Selton Mello já se provou como ator na televisão e no cinema, sem se esquecer de seus divertidos trabalhos como dublador. Tendo se lançado como diretor em 2008, foi apenas três anos depois que Mello conquistou de vez os espectadores brasileiros com O Palhaço, uma nostálgica narrativa remontando os tempos onde a maior diversão do respeitável público se encontrava debaixo das lonas circenses, sem se esquecer de projetar uma admirável jornada pessoal com bom humor e emoção. Agora, além de dar continuidade ao seu estilo autoral, é com a adaptação do livro "Um Pai de Cinema" (escrito por Antonio Skármeta) que o diretor/ator comprova que é dono de um superior e belo cinema brasileiro que não se vê todo dia.


Com roteiro co-escrito por Mello e Marcelo Vindicatto, O Filme da Minha Vida remonta a um tempo onde a ingenuidade e os bons valores aos poucos davam lugar à rebeldia e suas consequentes quebras de paradigmas. O ano é 1963 e o jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) retorna à sua cidade natal na Serra Gaúcha tendo em mãos um diploma para ser professor de francês, mas, ao chegar em casa, recebe a infeliz notícia de que seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), retornou para a França sem mais escusas e deixando sua mãe (Ondina Clais) sozinha e se virando entre um emprego de telefonista e os demais afazeres domésticos. Das aulas que pouco cativam a garotada em classe às conversas com Luna Madeira (Bruna Linzmeyer), mas de olhos na irmã mais velha desta, além de encontrar uma nova figura paterna em Paco (Selton Mello), um amigo da família que sempre esteve por perto para ajudar os Terranova e que agora insiste em fazer Tony a esquecer do pai.



Se o elenco entrosado esbanja carisma e tende a conquistar o público logo de primeira, com destaque para o próprio Selton Mello com uma entonação fora do comum, Cassel e uma afável figura paterna cuja ausência é realmente sentida durante a projeção, o filme reserva muito mais do que a evolução de Massaro como ator e até a boa participação especial de Rolando Boldrin. Da produção caprichada que faz uma exímia reconstituição da época, revelando um cinema imponente em meio a cidade interiorana, além das recorrentes analogias entre as rodas de bicicletas e motos com o sistema de projeção dos filmes em película, é deveras louvável a direção de fotografia que Walter Carvalho faz em O Filme da Minha Vida. Aproveitando-se do clima enevoado da região serrana e, a partir daí, aguçando o tom idílico dos cenários, a fotografia guarda vários passagens marcantes onde filtros amarelados e luzes vermelhas possuem atribuições significativas, sem se esquecer de utilizar movimentos de câmera e desfoques coerentes com a narrativa. Dessa forma, pode-se dizer que o longa é muito mais do que um conto sobre uma marcante fita (no caso, Rio Vermelho, de Howard Hawks) e todo o bom saudosismo de se viajar de trem ou quando as coisas fluíam sem pressa, mas também uma história sobre o amadurecimento pessoal e suas descobertas, sejam elas profissionais, amorosas e até sexuais – ou não só isso.


Pecando apenas por se inclinar a um viés paternalista que consome boa parte da trama, ainda assim, O Filme da Minha Vida é singelo, bonito e distinto ao não inferir problematizações tal como uma vertente do cinema nacional de festivais ficou viciada em abordar. Embora seu título pareça definir que se trata da obra máxima de diretor, não há dúvidas de que Selton Mello já é um competente esteta tal como os grandes nos quais se inspira e, das estradas e trilhos livres que filma aqui, sua jornada cinematográfica tende a ser continuamente promissora.



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