quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Malasartes E O Duelo Com A Morte | CRÍTICA


O cinema fantástico é um gênero que, apesar de uma recente empreitada de títulos infantis nos últimos anos com bilheterias expressivas, ainda se mantém em baixa na produção brasileira. Rótulo comumente atribuído às já antigas películas da Xuxa e d'Os Trapalhões, nesse ínterim, tal lacuna no cinema nacional foi preenchida pela sempre chamativa oferta dos títulos estrangeiros com seus efeitos visuais de sobra, tornando o público mais exigente quanto à qualidade destes. Logo, se era por falta destes atrativos e de tramas pra lá de mirabolantes, Malasartes E O Duelo Com A Morte tem tudo para cativar os espectadores ansiosos por uma história descontraída e que, por fim, não se empreende em problematizar a situação de seus personagens.

Dirigido e escrito por Paulo Morelli a partir da lenda que circunda o folclore íbero-americano, o filme apresenta a vidinha bucólica de Pedro Malasartes (Jesuíta Barbosa) e sua procrastinadora rotina em passar a perna em qualquer trouxa da região, escapar de qualquer tipo de esforço braçal e, ainda por cima, fixar o olhar em uma morena, para o desagrado de Áurea (Isis Valverde), uma moça gentil que quer firmar compromisso com o rapaz que, sempre esquivo, também dá um jeito de não prestar contas com o irmão dela, o bruto Próspero (Milhem Cortaz). Com tantas estripulias somadas, a última coisa que Malasartes esperava era ir de encontro com a Morte, personificada aqui por Julio Andrade que, cansada de tanto trabalhar na ininterrupta vigília das almas vivas, acredita que Malasartes é o sujeito ideal para ocupar seu posto. Isto se seu ajudante, Esculápio (Leandro Hassum) e, do outro lado desse submundo sinistro, a Parca Cortadeira (Vera Holtz) também estejam tramando para tomar o trono do qual o rapaz parece nem um pouco interessado.



Revelando um bom e criativo uso dos efeitos digitais na complementação dos cenários e demais elementos fantásticos, Morelli também tem como vantagem as atuações dedicadas de seu elenco que entregam performances brejeiras e cômicas que dificilmente extrapolam o que se pede dentro da narrativa, ainda que aqui doses moderadas de exagero são bem-vindas. Assim, o Malasartes de Jesuíta Barbosa facilmente conquista o público com seu jeito sorridente e travesso, mas incapaz de cometer maldades, muitíssimo bem acompanhado da sempre ótima Isis Valverde e sua personagem nada ingênua; característica esta que, por outro lado, sobra ao Zé Candinho interpretado por um dedicado Augusto Madeira. O elenco veterano, por sua vez, tira de letra o que é esperado de seus papéis por mais que o tempo de tela para cada um é equilibrado, logo, é divertido assistir à Vera Holtz em cena com sua habitual irreverência e notar Julio Andrade cada vez mais se firmando como um dos atores brasileiros mais versáteis da atualidade, enquanto Leandro Hassum faz graça com a dislexia de seu Esculápio e Milhem Cortaz imponha tensão, tal como em tantos outros papéis seus.


Deslumbrante por seu design de produção que replica o velho interiorzão brasileiro sem excessos, por sua trilha com um assovio a la Morricone e por sua contraparte mística bem executada (o conceito dos cordões de velas-vidas é lindo!), Malasartes E O Duelo Com A Morte só deixa a desejar quando o roteiro demonstra cansaço em seus incidentes um tanto quanto repetitivos e por não abraçar de vez a comédia pastelão tal como O Auto Da Compadecida fizera perfeitamente. Entretanto, para uma retomada expressiva do gênero, Malasartes já é um cinemão dos bons!




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