quinta-feira, 22 de junho de 2017

Uma Família de Dois | CRÍTICA


Toda vez que uma produção estrangeira faz um sucesso tremendo de bilheteria em seu país de origem ou consegue isso até mesmo nos Estados Unidos, não faltam produtores ambiciosos querendo adaptar a história aos moldes hollywoodianos ou à própria cultura mais pela chance de aproveitar a suposta fórmula lucrativa do que adaptar a história aos seus costumes locais. Bons e maus exemplos não faltam por aí há décadas e, por sua vez, Uma Família De Dois prova que consegue ser mais agradável e irreverente do que o seu original mexicano.

Dirigido e roteirizado por Hugo Gélin, o filme segue à risca a estrutura narrativa e até mesmo replica os cenários e situações vistas em Não Aceitamos Devoluções, longa estrelado por Eugenio Derbez em 2014, mas trazendo o diferencial de se passar na Europa e com algumas mudanças que vem a calhar e para melhor. Na trama, Samuel (Omar Sy) é um piloto de barco na Riviera Francesa que gosta de curtir a vida regrada a festas e mulheres na cama, jamais cogitando no exercício da paternidade até que uma moça de nome Kristin (Clémence Poésy, a Fleur dos filmes Harry Potter) aparece no seu local de "trabalho" deixando uma bebê de três meses aos seus cuidados, afinal, parece ter tudo para ser sua filha. Inicialmente inseguro (tal como em um momento de sua infância), Sam parte para Londres tentar reencontrar a mãe de sua filha, mas, na sucessão de infortúnios e do contato com um afetado produtor de cinema (Antoine Bertrand), aquele que era um sujeito leviano passa a se tornar um pai pra lá de protetor ao se afeiçoar terminantemente à menina Gloria (Gloria Colston), o que não quer dizer que, por melhores condições de conforto e diversão que ofereça a ela, também não esconda alguns segredos.


Respeitando o teor cômico do original sem cometer os mesmos excessos deste, por outro lado, Demain Tout Commence investe num tom dramático que soma à credibilidade da história e do vínculo entre pai e filha, ainda que os incidentes seguintes quase o tornem também num novo Kramer vs Kramer em meio à modernidade urbana de Londres que, por sinal, recebe uma bela fotografia. Só é uma pena que a narrativa repita o equívoco do longa de 2014 e faça pouco caso do lado da mãe na vindoura disputa, relegando-a se justificar com desculpas insossas que mais parecem um descuido do roteiro com um mero "querer por querer". Outra (leve) ressalva fica por conta da amenidade no impacto da surpresa final, coisa que talvez tenha sido uma das passagens mais comoventes no filme de Derbez.

Tendo em mãos não só a excelente performance de Omar Sy (que navega entre a alegria e a tristeza com maestria) como de todo o elenco principal, Uma Família de Dois não só entretém com seus momentos engraçados e por seu lado metalinguístico ao retratar os bastidores do audiovisual onde dublês fazem o impossível e assistentes de direção superam os limites da rouquidão, mas também deixa explícito que não é preciso uma família devidamente de sangue para prover a uma criança todo o carinho, segurança e diversão que se julgar necessário dentro do tempo que possuem. Certamente, uma obra despretensiosa que não merece passar batida.  



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