sexta-feira, 23 de junho de 2017

Frantz | CRÍTICA


Em um amargurado vilarejo alemão, uma moça visita diariamente o túmulo de seu noivo, morto em combate no ano anterior durante a Primeira Guerra Mundial, até que um dia avista um rapaz fazendo o seu mesmo gesto solene. Por que Adrien (Pierre Niney), um francês, se sujeita a tal atitude sem se incomodar com as várias ofensas dos locais, é um mistério que Anna (Paula Beer) se vê engajada em descobrir ao ter contato com ele e, assim, ficar mais próxima da verdadeira relação dele com Frantz (Anton von Lucke), nome que também intitula o bom drama de época roteirizado e dirigido por François Ozon.

Inspirado numa peça de Maurice Rostand que, consequentemente, fez Ernst Lubitsch realizar o filme Não Matarás em 1931, Ozon filma Frantz como se fosse uma película dos tempos das primeiras de Hitchcock ou até mesmo de Murnau ao explorar uma instrospectiva história de paixão onde as diferenças entre as nações ainda eram gritantes nas ruas e demais locais das cidades mesmo com a guerra encerrada há um ano. Não por menos, até a monocromia da fotografia tem um sentido narrativo ao refletir o estado de espírito das personagens e, quanto mais Anna e a família do falecido jovem se aproximam de Adrien, tudo passa a ganhar mais cores ou acaba voltando a ser como era antes, onde fingir se torna um eufemismo a fim de evitar novas dores.



Dessa forma, Frantz tem uma reconstituição histórica impecável e possui uma envolvente condução em sua primeira metade, ainda mais quando sugere um triângulo amoroso cuja parcela (supostamente) homoafetiva revela cenas bastante admiráveis, além do fato de personificar Anna como uma mulher à frente do seu tempo ao ter voz suficiente para peitar qualquer sujeito grosseiro que venha a lhe pedir sua mão em casamento. Destaque também para a atuação de Niney que, embora atue mais contido do que um ator das primeiras décadas faria com expressionismos faciais de sobra, acaba lembrando Ivor Novello em suas colaborações com aquele que viria a ser intitulado mestre do suspense.

Deixando a desejar por seu viés conformista e até conservador no que cerne ao restante de sua narrativa, ainda assim, o longa de François Ozon projeta um tipo de cinema cada vez mais raro ao se apoiar tão bem no potencial imagético e nas demais referências artísticas que impulsionam a trama, moldando e guiando a protagonista e os próprios espectadores a um mundo menos ingênuo, fabuloso e, como qualquer pintura num museu, sujeito a todos os tipos de interpretações.



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