sexta-feira, 14 de abril de 2017

Martírio | CRÍTICA


Dirigido por Vincent Carelli, com a codireção de Ernesto de Carvalho e Tita, Martírio é o documentário brasileiro promovido pela Sessão Vitrine Petrobras essa semana. Um dos grandes destaques do Festival de Brasília em 2016, de onde saiu vencedor do prêmio do público de Melhor Filme de longa-metragem e do Prêmio Especial do Júri Oficial, o filme, produzido colaborativamente com recursos próprios, alcançou prestígio graças à enorme repercussão no circuito cinematográfico, aclamado e premiado em inúmeros festivais e mostras no Brasil e no mundo.


Martírio se propõe a traçar o histórico de conflitos e reivindicações em torno da questão territorial envolvendo povos indígenas Guarani Kaiowá e agricultores, partindo da Guerra do Paraguai e alcançando a contemporaneidade. Narrado em primeira pessoa, é notável um compromisso moral, ético, político e sobretudo afetivo quanto ao tema tratado, revelando quase que uma espécie de necessidade compulsiva do cineasta de realizar a obra, infelizmente tão emergencial na recepção quanto na finalização, aparentemente.


O documentário pretende ser e se faz uma aula de História sobre brasileiros que sobrevivem numa fria e injusta invisibilidade, mas infelizmente se prende muito ao mero caráter informacional de filme, estendendo-se por quase três horas numa torrente imagético-discursiva, deixando o aspecto artístico do cinema de lado – senão esquecendo-o por completo. Nesse sentido, a forma jornalística-televisiva é dominante e, apesar de não muito interessante linguageticamente ao passo que acumula ideias muitas vezes pouco articuladas, funciona bastante bem na intenção de ser um manifesto de denúncia contra a ignorância ou omissão total da história e inversão cínica de papéis.

É, enfim, um filme político que, sem dúvida, mesmo com todos os problemas, precisa ser visto pelo Brasil. Importante não só por se propor a tratar de uma problemática nacional, mas por fazê-lo com uma profundidade intensa e íntima; um filme filmado para e com os indígenas, vindo do cerne da abordagem temática, feito também pelos personagens do drama real – o que acaba por consolidar a unilateralidade de Martírio. Mas por que seria isso um problema? Nesse caso, não é: o filme sabe a que vem.



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