sexta-feira, 17 de março de 2017

Era o Hotel Cambridge | CRÍTICA


O filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, aborda dois temas importantes da atualidade: a questão dos refugiados e o direito à moradia. Filmando a rotina dentro de uma ocupação no imenso e abandonado Hotel Cambridge em São Paulo, Caffé torna o particular em universal, mostrando como o drama de grupos vulneráveis é facilmente identificável em outros.


Com um estilo ficcional documental, o filme narra a rotina de diversos moradores do local, que serve como moradia para inúmeras famílias, enquanto aguardam apreensivos a iminente reintegração de posse. Entre os moradores, está Hassem, refugiado palestino e seu neto Kalil, ambos geram ótimas cenas dramáticas e cômicas. Além desses, o refugiado Ngandu, oriundo do Congo que veio ao Brasil depois de problemas sociais em seu país. Todos esses personagens são de fato refugiados e trazem uma veracidade impactante a produção. Há também alguns atores brasileiros, como bom Apolo (Jose Dumont), Gilda (Suely Franco) e Dona Carmem (Carmem Silva).



O interessante do longa é o modo como trabalha o drama dos grupos vulneráveis. O cinema tem uma grande capacidade de gerar empatia e isso fica bem explicito quando Caffé nós coloca para morar junto com as pessoas no Hotel Cambridge. No filme, um drama particular (dos sem-teto morando em São Paulo) se interconecta com um drama universal (a questão dos refugiados apesar de ter seus efeitos no Brasil, atinge mais outras regiões do globo, como o Oriente Médio e a Europa, mas não deixa de ser um problema global).

Em cenas cotidianas, como brincadeiras, conversas, atividades do dia a dia, o espectador se familiariza e passa a torcer pelos moradores do prédio. Em contraposição, o vilão é o aparelho institucionalizado de poder que tem como objetivo fazer a reintegração de posse do local, inevitavelmente deixando as famílias sem moradia.



No início, o estilo narrativo-documental chega ao ponto de confugir; afinal, estamos assistindo uma ficção ou um documentário? Justamente por esse estilo, os personagens e seus dramas são mais identificáveis. A personagem Dona Carmem (Carmem Silva) é um exemplo disso, porque atua como si mesmo no filme e na “vida real” é líder da Frente de Luta por Moradia, organização que luta pelo direito das pessoas sem teto no Brasil.


Potencializando esse mix de realidade-ficção, Caffé insere uma filmagem real do drama de Ngandu em uma mina congolesa, fato que intuitivamente concluímos ser o motivo de seu refúgio. As conversas via Skype com familiares mostram que o drama dos que ficaram em seus países é ainda maior. O filme também faz um retrato etnológico interessante à medida que mostra culturas tão diversas convivendo em meio a situações de vida dramáticas. Consegue fazer isso, sem soar forçado ou apelativo.


Um documentário “de ficção”, Era o Hotel Cambridge é sensível ao mostrar o drama dos grupos marginalizados, sem soar moralizante. Tem o mérito de trabalhar temas delicados, ao mesmo tempo que mostra à variedade cultural como particularidade e essência humana.




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