quarta-feira, 15 de março de 2017

Jonas e o Circo sem Lona | CRÍTICA


Jonas e o Circo sem Lona é um filme documentário baiano de 2015, dirigido por Paula Gomes, integrante do coletivo Plano 3 Filmes. Premiado com o TFI Latin America Arts Fund, concedido pelo Tribeca Film Institute, o filme já recebeu alguns prêmios, dentre os quais o “Prêmio do Público” no Festival Cinélatino Reencontres de Toulouse 2016 e integra, agora, a programação da Sessão Vitrine PETROBRAS.

O filme acompanha Jonas Laborda, um garoto de 13 anos bastante carismático cujo sonho é fazer funcionar o Circo Tropical, criado por ele em seu quintal.  Nesse intento, Paula faz uma imersão interativa na infância do garoto, em conflito constante com a ideia de escola e a insistência da mãe para que ele tome um rumo diferente na vida – é quando ele se vê obrigado a crescer.

Com uma planificação encantadora, esteticamente preocupada e significante, trata-se de um filme engajado, que reflete o seu tempo e sociedade. Dotado de uma simplicidade transcendental que alcança uma potente sensibilidade, resultado da real cumplicidade entre Jonas e a diretora, notada através de diálogos comoventes e quase melancólicos, de compreensão e envolvimento recíprocos. Em contraponto, Gomes tem a consciência de que, na sua proposta fílmica, a idealização de uma personagem é algo a se evitar – nesse sentido, através da interferência de terceiros, fiéis de que o menino é indigno de protagonizar um filme, ela também retrata um Jonas desinteressado, que não parece levar nada se não o circo a sério.



Assim, enquanto o Circo Tropical vai ruindo, o garoto, que já conquistou o espectador em toda sua paixão circense quase romanesca, percebe sua impotência em mudar o final desse filme. Sendo o circo metonímia da infância, a diretora traduz com eficiência e beleza poética o conflito presente entre o crescer e o sonhar – seriam esses dois verdadeiramente dissociáveis?

Jonas e o Circo sem Lona, enfim, é lindo e consciente. É sobre fases, sobre os conflitos do crescimento e, principalmente, sobre sonhos. E sobre o não acabar dos sonhos, apesar do acabar obrigatório dos filmes. Trata-se de um filme importante, de questões universais e afetividade genérica. Um documentário que, mesmo entretendo o espectador, acaba por problematizar questões socioeconômicoculturais (tais como a insuficiência e incompletude do sistema de educação contemporâneo e a falsa percepção do poderio financeiro em prol da realização pessoal) e a verdade do próprio gênero fílmico, quando a diretora replica Jonas, que supostamente mente para a câmera. Assistir ao filme é, pois, um privilégio – e, infelizmente, para poucos.


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