sábado, 11 de fevereiro de 2017

A Qualquer Custo | CRÍTICA


Era uma vez o Oeste estadunidense. Lá muitos homens brancos conquistaram seu espaço e seu ouro, guiando o gado pelas terras até então pertencentes aos ameríndios e aos mexicanos e assim expandindo o território americano criando suas próprias oportunidades, muitas vezes, acima dos limites alheios. Enquanto premissas para vários westerns filmados e projetados neste mais de um século de cinema, tais linhas narrativas já conhecidas do imaginário popular vão e voltam em filmes que buscam nelas um meio de refletir sua contemporaneidade injetando uma dose particular de estética e, no caso de A Qualquer Custo, não seria surpresa notar que a vilania dos bandidos já não é mais nada comparado ao mal que as dívidas hipotecárias causam à população carente do país.


Com um olhar pra lá de incisivo, o diretor escocês David Mackenzie desbrava o interior texano em uma trama contemporânea que não perde nada para outros consagrados títulos do gênero realizados por cineastas genuinamente americanos, acertando, desde seu primeiro plano, a situação predominantemente marginal das cidadezinhas bem longe de terem o mesmo brilho de Dallas ou Austin: uma frase pichada contesta as três investidas do país contra o Iraque, desprezando a condição de seu próprio povo, casas maltrapilhas, carros empoeirados e bancos com quase nenhuma vigilância sequer. A partir do roteiro de Taylor Sheridan (Sicario), a câmera de Mackenzie não deixa escapar detalhes e valoriza segundos planos enquanto seu cenário traz pessoas nas ruas empunhando armas com naturalidade e onde uma velha garçonete é quem dita o que os policiais não vão pedir de almoço. É como se, excetuando picapes e outras tecnologias desta década, estivéssemos de volta aos anos do século XIX.



Chris Pine e Ben Foster vivem Toby e Tanner Howard, dois irmãos que passaram a assaltar alguns bancos locais num itinerário bem planejado que os faz ficar à frente dos policiais que, desta vez, tardam a aparecer. A cada soma de notas pequenas e trocas de carros a cada roubo, os irmãos Howard vão revelando suas motivações pelo crime: se Tanner é um típico cachorro louco que a cadeia não conseguiu por nos eixos e assaltar, portanto, é o que faz de melhor; já Toby, cujos olhos claros explicitam seu desconforto diante de cada roubo, tem fatores mais "nobres" quando vê que aquilo é sua única opção de cumprir seu papel de pai e não quer ver a herança da família cair nas mãos dos bancos. Como todo bom filme de assalto, não demora para que sejamos cúmplices dessa dupla carismática mesmo cientes de que, a uma certa altura (e como diriam os gurus de roteiros), o crime não compensa.

No lado do que se entende ser a Justiça, conhecemos o quase-aposentado Marcus Hamilton (Jeff Bridges), um tira tão das antigas quanto sua forma de tratar as pessoas, em especial, as minorias. Atirando, quase que incessantemente, brincadeiras preconceituosas a Alberto Parker (Gil Birmingham), seu colega de polícia e de ascendência indígena, Hamilton parece ser o único "Texas Ranger" capaz de conter os assaltantes, conhecedor da região e dos padrões do tipo de crime como poucos – uma figura em extinção que se permite vestir um poncho e vagar pela madrugada quando o sono não vem.



Diferente dos eventos de seu enredo, é possível que o filme termine de mãos vazias na vindoura corrida das premiações de ouro, o que não quer dizer que não valha os muitos minutos da atenção do público. Hell Or High Water, em seu nome original, traz sequências humoradas com um toque sagaz de ironia como num bom filme dos irmãos Coen, uma edição que potencializa cada plano e entrega inventivas cenas de perseguição tão boas quanto os últimos longas similares, sem contar seu importante, ainda que breve, retrato social e a eficaz trilha de Nick Cave e Warren Ellis. Uma terra esquecida, onde slogans como "Make America Great Again" parecem um deleite a olhos e ouvidos, mas que ainda é riquíssima no que tange à arte de contar histórias.



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