quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Beleza Oculta | CRÍTICA


De uma forma ou de outra, eu poderia muito bem começar esta crítica da mesma forma que apresentei Manchester à Beira-Mar. Para início de conversa, também temos aqui um protagonista que procura o máximo de reclusão após uma tragédia familiar, um cenário invernal que não ajuda em nada na reconciliação da vida, os coadjuvantes amigos que nunca desistem do melhor amigo ou daquele que tanto se espelham. Diferente do filme indicado a seis estatuetas no Oscar, Beleza Oculta não só trata a Morte com amenidade, mas como oferece um espaço (apertado, diga-se de passagem) para falar do Amor e do Tempo.


O publicitário Howard (Will Smith) sempre fora criativo na elaboração de seus discursos e dificilmente deixaria se abater por qualquer coisa, ainda mais tendo uma equipe de sucesso em sua agência em Nova York. Obviamente, só mesmo a morte de sua única filha poderia derrotar o executivo de uma forma tão avassaladora que escrever cartas para três "elementos" tão simbiontes à vida parece nada mais do que uma terapia de expurgar os próprios rancores sem necessariamente desagradar quem estivesse de ouvidos. Enquanto isso, seus colegas Whit (Edward Norton), Claire (Kate Winslet) e Simon (Michael Peña) tentam segurar as pontas na quase falida agência, além de encararem – ou se esquivarem – dos próprios problemas pessoais.


Apresentada com um certo mistério nos trailers, acaba que a esperada entrada do trio Morte, Amor e Tempo se revela divertida, apesar de seu desenvolvimento que passa a apelar para sermões solenes e de seu preço terminantemente inverossímil. No entanto, é Helen Mirren que se destaca por surgir bastante solta e até cômica quando convém em seu papel que, numa visão estereotipada, era de se esperar nada menos do que uma figura assombrosa e carrancuda; enquanto o personagem de Jacob Latimore literal e excessivamente rouba tempo de tela (ainda que traga uma ou outra reflexão genérica), faltando a Keira Knightley mais momentos e frases com melhor efeito além da sua boa cena de abertura, relegada a ser uma proposta de interesse amoroso do "mulherengo" Whit que, por sinal, deixa escapar uma fala constrangedora sobre sexo.

Dirigido por David Frankel, que obteve fama com O Diabo Veste Prada e Marley e Eu, Collateral Beauty (no original) sobrevive do entrosamento de seu talentoso elenco por vezes prejudicado por um roteiro rasteiro pra lá de melodramático que se apega a um moralismo que não é dos mais sensíveis. Apesar desta narrativa trôpega, há de se destacar a fotografia da competente Maryse Alberti com suas aconchegantes cenas noturnas de fundos desfocados e a bela e crescente dinâmica entre Smith e a sempre afável Naomie Harris.



De resto, é uma pena que, mesmo com um conceito deveras interessante, seja um filme presumivelmente feito às pressas, aproveitando as brechas da agenda tumultuada de seus atores sem ao menos lhes proporcionar tempo que resultasse em performances mais coerentes, vide o impacto quase nulo da doença do personagem de Michael Peña (arriscando no drama). A partir do momento em que apresenta um plano onde as peças roxas de um dominó são as primeiras a cair, Beleza Oculta tinha tudo pra destacar várias mensagens pertinentes à vida, mas carece de metáforas escondidas nas suas entrelinhas.


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