quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Herança de Sangue | CRÍTICA


Das estradas dos primeiros Mad Max, Mel Gibson ganhou o mundo ao se provar um ótimo ator de ação combinando carisma e violência em filmes de temas distintos pelas décadas de 80 e 90, ainda que preso às fitas de "tiro", levando posteriormente tal estilo para a sua premiada carreira de diretor. Não se dando por vencido após um ostracismo hollywoodiano e sem precisar provar nada a ninguém, o ator corre por fora em filmes regulares com personagens buscando redenção no meio da marginalidade americana, algo que vem a se repetir em Herança de Sangue.


John Link (Gibson) é um tatuador recém-saído da prisão que mora num parque de trailers típico da "cultura" white trash americana. Desde então, ele evita qualquer tipo de problemas, participa de reuniões de anônimos e tem em Kirby (William H. Macy) uma amizade que o assegura de não ser mais um "elo perdido", como o nome de seu improvisado estúdio de tatuagem. Qualquer hábito fora do comum, até mesmo voltar a andar de moto, é violação de conduta. Link, no entanto, preocupa-se com a filha desaparecida há dois anos que, por ironia do destino, seria ela a romper sua própria busca entrando em contato com o pai em circunstâncias nada amistosas. Em fuga após ter supostamente matado seu namorado Jonah (Diego Luna), um narcotraficante que opera com "negócios" imobiliários, Lydia procura na distante figura paterna apenas o apoio financeiro para sumir do mapa, mal sabendo que logo precisará da proteção e da fúria que ele contém há tempos.


Dirigido por Jean-François Richet (Assalto à 13ª Delegacia), o roteiro de Andrea Craig (Straight Outta Compton) e Peter Craig (roteirista dos dois últimos Jogos Vorazes e que também assina o livro do qual adapta) faz da jornada de Lydia (Erin Moriarty) e Link um road movie pouco interessado em aprofundar a relação árida entre pai e filha, ainda que haja lapsos suficientes para conhecermos as motivações destes co-protagonistas que os tornam semelhantes apesar das diferenças ao passarem por cenários obrigatórios do subgênero. No entanto, a estrada também lhes reserva perseguições de policiais e bandidos por onde quer que passem e, se o tatuador espera se redimir com a filha na esperança de que o resto da juventude dela não seja perdida com drogas e criminalidade, há uma brecha para o ator deixar claro o seu desprezo pelo nazismo ao visitar o reduto do personagem de Michael Parks (Django Livre).



Das suas asserções pontuais sobre a contemporaneidade, tendo sua máxima na cena inicial onde Lydia é barrada de comprar um maço de cigarros, mas as balas para um futuro assalto passam no caixa sem restrição da operadora, o filme reserva boas cenas de ação na estrada e fica evidente como o primeiro Max Rockatansky se sente à vontade nessa fuga violenta e disparada. Quando seu personagem se apresenta de regata aos bandidos provando estar desarmado, mais revelando uma musculatura surpreendente em seus 60 anos, é como se Mel Gibson mostrasse a Hollywood também que pode se manter no gênero pelo qual foi conhecido, ainda que próximo de um estigma. Uma pena que o excesso de dramas superficiais comprometa Herança de Sangue (Blood Father) naquilo que fez de melhor: suas breves, porém empolgantes, sequências nas rodovias onde tipos como motoqueiros e outras figuras marginalizadas assumem estar em extinção.




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