segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tallulah | CRÍTICA


Afinal, o que leva as mulheres a serem mães? Da imposição familiar às circunstâncias desejáveis ou não, o instinto materno parece vir à tona quando menos se espera, nem que seja resultado de atos em prol da própria sobrevivência ou até mesmo quando a criança não é do próprio ventre. Em Tallulah, a alteridade e, não por menos, a sororidade falam mais alto enquanto padrões tradicionais de família tendem a ruir cada vez mais.


Dirigido e escrito por Sian Heder, roteirista de alguns episódios da série Orange Is The New Black, Tallulah conta a história de sua personagem-título interpretada por Ellen Page, uma moça de hábitos maloqueiros que rodou boa parte dos Estados Unidos em uma van igualmente maltrapilha junto com seu namorado Nico (Evan Jonigkeit), um rapaz que, embora não tenha visto sua mãe por dois anos e por vontade própria, começa a sentir falta do conforto e de uma vida regular em Nova York. Diante disso, Nico sugere a Lu (como prefere ser chamada) a opção do casamento e ter filhos, mas a moça não abre mão da rotina antisistema, sonhando até com uma viagem à Índia. Destinos opostos, o namorado abandona a moça, fazendo com que ela tome a estrada e vá bater na casa da mãe de Nico, Margo (Alisson Janney; A Espiã Que Sabia de Menos).



É numa de suas perambulações por um um hotel, catando os restos de comida que encontra nas bandejas, que a garota encontra uma nova chance para conversar com a mãe de seu namorado, uma vez que o encontro (surpresa) fora um fiasco. Vista como uma serviçal por uma decadente mulher rica chamada Carolyn (Tammy Blanchard), Lu é incumbida involuntariamente de cuidar de Madison, uma neném de apenas 1 ano que anda à solta pelo apartamento e sem qualquer tipo de proteção, algo que acaba despertando um sentimento do qual Lu era cética até então. Aproveitando-se da situação, a moça usa a criança a fim de convencer Margo que é filha do sumido Nico e, se isso vai lhe garantir um teto, comida e banho até que o namorado apareça por fim, as consequências deste sequestro "por bem" encontrarão Lu de qualquer jeito, por maior que seja Nova York.

Longe de ter uma fotografia ou qualquer atributo técnico que seja deslumbrante, Tallulah é um estudo sobre as mulheres que circundam este conto urbano, uma vez que a autora já tinha contado a história em forma de curta-metragem sob o nome de Mother ainda em 2006. Tecendo um texto inspirado aqui e acolá, com passagens até mesmo poéticas, Heder prefere enfatizar, mas sem se estender muito além, nas diversas personas que apresenta durante os atos, desde a baixa estirpe da protagonista, passando pela corretíssima conselheira tutelar (negra e se preparando para receber o 3º filho) e seus assertivos atritos com Carolyn, guardando o maior mistério para a personagem de Janney. Margo é escritora de uma série de livros sobre a estrutura do casamento, mas ironicamente, recebe constantes cópias dos papéis de divórcio de seu ex-marido; um motivo ainda atravessado na garganta de quem abdicou de uma carreira acadêmica para constituir uma família.

Permeado com cenas às vezes desconexas ou repetitivas, mas com apontamentos pertinentes,  vide o desespero de Carolyn em se achar bonita e atraente para um amante que diz ter arranjado, é uma pena que a justiça persista em ver apenas um lado da moeda. Por mais que ela tente oferecer um mínimo de proteção materna, Tallulah ressalta que a culpa recai em sua figura marginalizada e também da vida real.



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