domingo, 28 de agosto de 2016

Águas Rasas | CRÍTICA


Faz pouco mais de quarenta anos que Tubarão foi um literal divisor de águas no que tange a filmes de horror ou aventura envolvendo "monstros" marítimos, por assim dizer. Da subsequente leva de produções similares e de qualidade duvidosa, o legado do longa dirigido por Steven Spielberg vingou e percorreu as décadas graças ao seu apreço técnico e narrativo, assim sendo emulado e parodiado por tantos outros, mas sem o mesmo fascínio do original. Vendido como um novo Tubarão, mas distante de querer imitá-lo, Águas Rasas surpreende por emergir como um suspense virtuoso ao se adaptar e se aproveitar dos aparatos digitais contemporâneos.


Sob a direção de Jaume Collet-Serra (A Órfã, Noite Sem Fim), Águas Rasas segue a onda de filmes de sobrevivência recentes, tais como 127 Horas, Gravidade e até mesmo O Regresso, mas aqui não há muito espaço para delongas existencialistas ou ritualísticas. Porque é durante a viagem de Nancy (Blake LivelyA Incrível História de Adalinea uma escondida praia (no que entende ser de um país latino) que conhecemos a personagem e o mote da história nos mínimos detalhes, seja no diálogo com o simpático Carlos (Óscar Jaenada), nas conversas em aplicativos de mensagens ou nos adereços que traz em suas roupas ou mochila – tudo terá sua devida importância narrativa no momento apropriado. 



Em pouco tempo, então, o roteiro de Anthony Jaswinski nos orienta que Nancy largou sua faculdade de Medicina recentemente devido ao falecimento de sua mãe, esta que já tinha rumado para a mesma praia quando descobriu estar grávida da primeira filha. Sem deixar de se contatar com o pai e a irmã mais nova que deixou no Texas, Nancy busca no local paradisíaco uma forma de se religar à mãe e também por o surfe em dia, mas ela só não esperava que, sozinha na água, fosse atacada por um tubarão branco – que demora, mas não tarda a aparecer. Diante de tal desolação e do seu grave ferimento, a moça descobre que a sua única chance de sobrevivência é se apegar a sua inteligência e os padrões que a natureza lhe oferece naquelas tensas circunstâncias. Dos momentos tênues aos apavorantes, nada teria efeito caso o carisma de Blake Lively não fosse uma constante, comprovando que a atriz, além de sua beleza e seus sorrisos lindos, é competente também ao lidar com as várias cenas de esforço físico.

Tendo uma carreira consolidada com bons filmes de ação e suspense, Collet-Serra utiliza a experiência ao seu favor e torna Águas Rasas mais do que um mero filme de verão americano com paisagens ensolaradas e músicas pop ditando o ritmo, ainda que o roteiro volta e meia faça convenções para tornar a experiência mais comercial ou com alguns toques de trash dos quais o gênero ficou marcado, em especial, quando aplica o fator da punição. O que fascina, no entanto, não é apenas a eficaz construção do suspense que se agrava a cada distanciamento que a câmera de Flavio Martínez Labiano (O Franco-Atirador) confere a cada plano, ou nas composições criadas que prenunciam o ataque, como na cena submersa em que Nancy nada entre duas pedras e abaixo há uma fileira de rochas denteadas, mas a escolha acertada do diretor ao evitar o senso comum de apresentar conversas em planos e contra-planos. Aproveitando o espaço negativo dos planos, Collet-Serra insere na contra-parte dos enquadramentos as telas dos aplicativos que Nancy usa para se comunicar em texto e vídeo ou visualizar as fotos antigas da mãe na praia, entrando e saindo de acordo com o interesse narrativo; informações cruciais para a sobrevivência da personagem também são dispostas desse modo e até mesmo uma câmera GoPro detém uma relevância cênica além do seu recorrente uso de fornecer perspectivas de pranchas ou capacetes. 



Afogando breves deslizes envolvendo principalmente os cenários reconstruídos digitalmente ou a ênfase no elo familiar e a ligação transcendente com a figura materna, Águas Rasas (The Shallows) é daquele tipo de filme intuitivo que prende a atenção por suas cenas de ação bem executadas e que nos faz imaginar o seu processo durante a projeção inteira; um apreço a mise-en-scène cada vez mais escasso em tempos de montagens "ágeis", porém excessivas. Do seu protagonismo feminino de respeito ao revigoramento de um tema que é difícil de acertar em tela, ainda mais batendo de frente contra o gosto popular que abraça a nostalgia e preconiza novidades, que Águas Rasas não fique esquecido no fundo do mar de outros blockbusters sem sal. 



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