quinta-feira, 23 de junho de 2016

Irmãos da Noite | CRÍTICA (5º Olhar de Cinema)


Às margens do Rio Danúbio, um rapaz critica seu irmão mais novo pelo excesso de álcool que cada vez mais arruina seu plano de vida na capital austríaca. Emigrantes búlgaros de ascendência cigana, assim como outros jovens de vinte e poucos anos, os dois irmãos desembarcaram em Viena sob o pretexto de que haveria empregos na região, mais especificamente, em bares alternativos. A sinfonia dramática que abre Irmãos da Noite (Brüder der Nacht) prenuncia um filme prestes a abordar a rotina agridoce destes garotos de programa "involuntários", regozijando-se da beleza da boemia homoerótica.


Dirigido por Patric Chiha, o longa rotulado híbrido (mescla de ficção e documentário) trata de acompanhar de perto (e um tanto exaustivamente) os garotos a partir das suas idas rotineiras ao bar onde negociam com seus clientes, contando sobre suas primeiras experiências, preços cobrados, a moradia dividida com conterrâneos jovens e velhos, além de suas origens e o fato de a Bulgária não ter oferta de empregos, uma crise que afeta também o país onde foram "forçados" a abraçar a própria prostituição. À parte da linha documental, Chiha aproveita então para homenagear o que se supõem ser suas inspirações cinematográficas e encena a chegada de cada garoto ao meio: literais marinheiros de primeira viagem vestidos neste fetiche clássico que relembra o underground Fireworks e Querelle, o último longa de FassbinderMas se até aí Irmãos da Noite detinha a influência para quebrar preconceitos, revelando os sorrisos dos rapazes vaidosos que sonham em voltar pra casa cheios da grana, por incrível que pareça, a direção se esconde de abordar a questão da diversidade sexual.

O motivo: da metade do filme em diante, Chiha prefere reiterar continuamente que aqueles rapazes se envolvem com outros homens apenas pelo dinheiro, sem qualquer relação afetiva, uma vez que não faltam tomadas de um ou outro comentando que casou ainda adolescente por união arranjada como se pede o costume cigano, a ponto de mostrarem também as fotos das filhas em seus celulares. Seria arriscado dizer que, nas entrelinhas, esse todo mais parece um discurso homofóbico velado por tantos fetiches em cena.



No final da sessão do filme, o diretor afirmou que, tendo convivido por volta de um ano com seus personagens reais, muito do que foi visto foi improvisado entre eles; algo que, de fato, se resume em sua cena final onde o comportamento geral das pessoas presentes numa pista de dança muda subitamente ao encerramento de uma música sensualizante. Sabe-se lá o quanto foi verdade ou mentira nos depoimentos, mas foi instigante ver o cuidadoso trabalho fotográfico abraçando o kitsch, entregando um trabalho visual de qualidade, ressalvas discursivas a parte. 

Levando em consideração os várias obras que passaram no festival, onde mais parecia haver um enaltecimento de um amadorismo narrativo claudicante, com longos planos de simbolismos pífios, há de se prover uma menção honrosa para aqueles que ainda pensam na estética do filme.



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