segunda-feira, 20 de junho de 2016

A Comunidade | CRÍTICA


De seus títulos mais conhecidos, a filmografia de Thomas Vinterberg se resume a produções com dramas intensos envolvendo um considerável número de personagens motivados por um conflito particular que poderá ser solucionado pela boa vontade do coletivo ou não. A Comunidade (Kollektivet) não poderia ser menos diferente e, mais uma vez, o diretor dinamarquês entrega um filme cativante que emociona em vários aspectos ao focar no ímpeto por mudanças de uma família, redescobrindo as consequências do que é novo aos olhos e ao coração.

Para qualquer cidadão de Copenhague, Erik (Ulrich Thomsen), um professor universitário, Anna (Trine Dyrholm, uma Meryl Streep dinamarquesa), âncora de um telejornal, e sua filha Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen) parecem uma família comum e até os mesmos parecem acreditar nisso. Quando Erik recebe de herança um casarão de 450m² e estão quase prontos para se mudar para o novo lar, ainda que receosos quanto ao custo de manutenção do lugar, Anna tenta convencer o marido de habitar o lugar dividindo-o com outras pessoas, desde que sejam de confiança deles. Para a jornalista, é a oportunidade perfeita para renovar a relação do casal e trazer mais alegria e outras vozes ao ambiente tão quieto; para Erik, meio avesso à proposta da criação da comuna, mas ciente da colaboração financeira, parecerá o fim de uma vida privativa e outra em busca de seus próprios interesses, que podem abalar as estruturas daquela nova e grande família.



Em um cenário propenso a ter um ar novelesco, o tratamento de Vinterberg para o seu roteiro co-escrito por Tobias Lindholm (A Caça) vai por outro lado e se mostra tanto dinâmico como observativo, utilizando elipses para apresentar as características marcantes de cada novo morador sem delongas, mostrando as razões pelas quais cada pessoa ali será essencial para a criação da comuna, até mesmo o sensível Allon (Fares Fares) que pouco acrescenta no todo e ainda será motivo de desprezo por parte do radical Ole (Lars Ranthen). Do clima alegre elevado pela trilha nostálgica e demais elementos em cena, enaltecidos pela bela fotografia de Jesper Tøffner, que não se intimida com o clima úmido e nublado da cidade, a primeira parcela do filme se projeta de forma prazerosa, uma descoberta divertida regrada a mesas de jantar fartas que terminam em cigarros e cervejas, além de bons diálogos entre aqueles moradores. É como se, pouco a pouco, também nos tornamos moradores da comuna, sorrindo e chorando com o que passa por ali.

Apesar do grande elenco, a verdade é que a todo o momento estamos acompanhando os pontos de vista daquele trio que começou essa história. Debaixo de seus cachos ruivos e de sua personalidade enigmática, Freja esconde sua efervescência adolescente para descobrir o sexo, mas é impressionante o trabalho da dupla Thomsen e Dyrholm (retornando a parceria com o diretor desde o dogmático Festa de Família), que aos poucos vai rompendo com a cumplicidade que o casal detinha entre si. De um carismático acadêmico de arquitetura, onde busca projetar coisas grandiloquentes, Erik vai se portanto como um sujeito áspero e incapaz de retomar a harmonia da sua família, buscando consolo em sua amante, décadas mais jovem. Por sua vez, a energia radiante que circunda a personagem de Trina Dyrholm dá a vez para uma aura sombria, definhando-se ao perceber a ação do tempo no rosto quando é maquiada no estúdio, onde também tem a informação de que trabalha há muitos anos e, pouco a pouco, vai se deixando abater pelas tristes notícias do mundo afora. Mesmo quando procura dar uma segunda chance para o marido, suas manobras resultam em consequências mais angustiantes.



A Comunidade é daquele tipo de filme que parece ironizar a procura da resolução dos problemas pessoais abrindo-os para o mundo, convencendo por suas ótimas atuações pontuais, mas falta ousadia em seu senso de alteridade. Considerando a proposta de coletivismo, além do cenário pró-libertário (de corpo, alma e pensamento) advindo da primeira metade dos anos 70, o longa por vezes demonstra um paternalismo conservador, fazendo pouco caso dos distintos coadjuvantes que integram a comuna. É a partir das informações pessimistas ao final do noticiário e as falsas esperanças que podem ser até mortais que percebemos que nem sempre o mundo nos entrega as coisas do jeito como bem desejamos.




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