quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Décimo Homem | CRÍTICA


Existe uma certa reverência quando se trata do cinema argentino. Habitualmente concentrado em histórias cativantes e introspectivas, conversando com o espectador por meio de diálogos envolventes, a qualidade técnico-artística não fica por baixo e se tornou uma fórmula de sucesso para a indicação de suas películas em festivais consagrados mundo afora de uns tempos pra cá. Com a maioria desses elementos em destaque, O Décimo Homem é mais um típico melodrama portenho, perdendo-se justamente na restrição de seu público e nas pretensões que não impressionam.

Ariel (Alan Sabbagh) é um argentino de origem judia morando em Nova York e se prepara para voltar para Buenos Aires depois de tantos anos, a pedido do pai que tanto esteve ausente na vida dele. Se parecia uma chance de redenção em família, acontece que Usher sempre foi um "pai de todos" no distinto bairro Once, a princípio, um dos maiores e tradicionais redutos judeus da cidade. Chegando à peculiar fundação de apoio criada por Usher para atender a comunidade, desde alimentos a perucas e remédios tarja preta (resgatados de apartamentos de pessoas falecidas), Ariel descobre que, mais uma vez, assim como se repetiu na infância (em uma cena singela filmada em Super 8), Usher está ausente, se não se distanciando do filho. A cada dia da semana, mais o rapaz se sente frustrado pela sua estadia e os costumes religiosos que não lhe parecem fazer sentido, até se sentir curioso por Eva (Julieta Zylberberg), uma silenciosa ortodoxa que trabalha na fundação.

Dirigido por Daniel Burman, El Rey Del Once passa a ser um filme de resgate às tradições, seja pela simples vontade de rechear galetitas com doce de leite e separá-las ou adentrar nos ritos religiosos que, se para uns judeus são coisas indiferentes, dignas de tirar uma soneca (vide as cenas no refeitório da sinagoga), não faltam momentos vangloriando a cultura judaica e a prova maior disso é o quanto parecem afetar diretamente o quase apático Ariel. Existe uma certa beleza em tais passagens, assim como um desnecessário ar de superioridade, querendo mostrar que a religião é superior a outros credos.

Característica produção da Telefe, não faltam cenas descontraídas, uma atmosfera típica de novela com cada personagem popular com sua função narrativa própria; um filme com caráter híbrido (ficção mais documentarismo) que certamente teria mais êxito em festivais. Descontando a intenção de se levar a sério demais, problematizando mais e resolvendo por menos, é interessante ver como a jornada de Ariel o coloca como um Michael Corleone suburbano e, como qualquer sulamericano, dá um jeito pra tudo e ao abraçar de vez suas raízes.



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