domingo, 1 de maio de 2016

Capitão América: Guerra Civil | CRÍTICA


Houve uma era em que os filmes de super-heróis se concentravam apenas na simples jornada de seu(s) protagonista(s), culminando no embate final contra o vilão que tanto assola a cidade-sede da história. Derrotado o inimigo, página virada. Nossos heróis favoritos, então, poderiam voltar a desfrutar um pouco de suas vidas comuns – até que uma sequência fosse anunciada, trazendo outro conflito que desafiasse as capacidades das personagens. De uns tempos pra cá, alguns diretores e roteiristas chegaram a um consenso de que cada rastro de destruição causado pelas batalhas seria atribuído diretamente àqueles que tentam fazer justiça com seus alter egos e suas super-habilidades, agora também passíveis de questionamento. Enquanto tem vontade de flertar com esse posicionamento reflexivo, Capitão América: Guerra Civil prefere vingar na ação em boa sincronia com o entretenimento.


Após os eventos de Vingadores: Era de Ultron, a equipe formada por Capitão América/ Steve Rogers (Chris Evans), Viúva Negra/Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), Falcão/Sam Wilson (Anthony Mackie) e Feiticeira Escarlate/Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) seguem a trilha do capanga Ossos Cruzados (Frank Grillo) que, juntos com outros mercenários, raptaram uma arma biológica na cidade de Lagos, na costa leste africana. Esta sequência, diga-se de passagem, retorna o ótimo estilo de ação cooperativa entre os heróis que funcionou bem em Capitão América: O Soldado Invernal, se não um dos melhores filmes do Marvel Studios até agora e que conseguiu revisar a outrora personalidade tão patriótica do personagem, agora um sujeito ainda no processo de se adequar a um mundo mais frenético. Resultado óbvio das boas composições dos diretores Joe & Anthony Russo que, aliados aos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, aprimoram sua dinâmica e criam sequências que surpreendem pelo seu fluxo cômico mais equilibrado do que nas produções anteriores do estúdio. 



Todo esse aparente domínio da narrativa assegurado pelo seu típico bom humor é, todavia, comprometido quando assuntos mais sérios são postos para o debate, ainda mais quando se propõe a colocar seus dois maiores heróis em conflito direto. Quando a missão mal-sucedida em Lagos se torna o estopim para que o Governo dos Estados Unidos juntamente com a ONU proponha o Tratado de Sokovia, exigindo a legitimação dos heróis e não mais prestando contas para uma "organização privada". Enquanto um abalado Tony Stark (Robert Downey Jr.) volta atrás e acata o projeto sem pestanejar, deixando de lado a arrogância que dizem ter, Rogers rejeita a participação e leva outros consigo, ainda mais quando Bucky Barnes (Sebastian Stan) continua foragido e provocando mais atentados na Europa como o Soldado Invernal, que recebe uma subtrama instigante, mas com um desfecho previsível. 

Ciente de que ainda existe algo bom no velho companheiro, o Capitão age contra a nova lei e, por onde quer que passe, deixa mais estragos pelo caminho. Não vemos, portanto, a mesma opressão do Estado em apoio com a S.H.I.E.L.D. (dissolvida precocemente neste universo cinematográfico) que acontece no arco dos quadrinhos escrito por Mark Millar (e adaptado em livro por Stuart Moore), onde os Vingadores contrários são perseguidos sem piedade. O Capitão América construído aqui está longe de ser o protetor dos oprimidos e cada ofensiva do Governo ou, posteriormente, do "Time Homem de Ferro" é vista como uma atitude sensata, contrariando o posicionamento do espectador que deveria, acima de tudo, apoiar o protagonista do título do filme.



Quando já era apontado como mais um capítulo de Vingadores, Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War) se torna uma narrativa de vingança e redenção para Tony Stark, que continua a se destacar graças ao forte carisma e magnetismo de seu ator, mas o herói apresentado em 2008 precisa também disputar a atenção do público com a chegada dos ótimos novatos em seu time.


A Guerra do Favoritismo



Frustrando por não trazer um número considerável de heróis dos dois lados desse confronto, ainda mais quando se esquece de mostrar um autêntico panorama de guerra, como sugere seu subtítulo, esta nova aventura do Capitão América é a chance da Marvel testar quais das suas personagens continuam ou podem funcionar na tela. Figuras já conhecidas como o Gavião Arqueiro/Clint Barton (Jeremy Renner, parecendo mais confortável no papel) sugerem aposentadoria e os irmãos Russo aproveitam o ótimo timing cômico de Paul Rudd e literalmente aumentam a relevância do Homem-Formiga, um dos heróis mais versáteis na batalha do aeroporto, explorando ao máximo suas habilidades em divertidas cenas. A entrada majestosa de Chadwick Boseman como T'Challa/Pantera Negra é eficiente por conferir uma motivação crível ao herói de Wakanda e um estilo de luta selvagem que impressiona, mas a maior ansiedade fica por conta da entrada de Peter Parker (Tom Holland), em uma sagaz articulação do roteiro. Posicionando Stark como um mentor para este jovem Homem-Aranha, Holland transparece toda a bondade e o veio nerd do personagem, entregando uma referência digna de aplausos. Agora sim, o teioso pode ser chamado de "espetacular", deixando todos querendo mais.

O ótimo entrosamento do elenco e a composição das personagens "do bem", contudo, não se refletem quanto aos vilões inseridos no filme. Mais uma vez, a Marvel desperdiça o potencial dos antagonistas e a qualidade artística de quem os representa, subjugando Daniel Brühl na pele de um terrorista incoerente cuja psicopatia dispersa a atenção do público. Até mesmo Martin Freeman, que tanto se destaca por onde passa, fica esquecido em seu papel burocrático.

Capitão América: Guerra Civil tinha tudo para ser um excelente filme de fuga/perseguição (não faltam exemplos de ótimos filmes com a temática) e é lamentável que a Marvel, em seu 13º filme, pareça reclusa a promover uma reflexão pertinente para seu gigantesco público, como, ironicamente, fizeram suas séries Agent Carter, Jessica Jones e até mesmo Demolidor. Uma produção ambiciosa, mas temo que, passada a euforia de seu lançamento, Guerra Civil seja lembrado apenas por suas fantásticas cenas de ação e personagens do que pela narrativa e pelo discurso que carrega.


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