quinta-feira, 7 de abril de 2016

De Onde Eu Te Vejo | CRÍTICA


Seja no campo, no litoral ou no coração de uma metrópole, chega uma hora em que as pessoas sentem o clamor por mudanças, sejam elas internas ou externas. Inclua aí uma vontade de botar tudo pra fora, a necessidade de contar para alguém esses sentimentos que chegam a influenciar o rumo das nossas vidas, por bem ou por mal. Fazendo uma média das milhões de pessoas que moram na capital paulistana, mas esquecendo de ousar mais, De Onde Eu Te Vejo aproveita o melhor da eloquência de Denise Fraga para nos contar o dia-a-dia de uma família contemporânea, longe de ser tradicional e perfeita.


Ana Lúcia (Denise Fraga), a narradora desta história, e Fábio (Domingos Montagner) estão num processo de separação após duas décadas de convivência, um caso de amor inesperado que começou na Rodoviária do Tietê. Ela veio do Rio de Janeiro, uma arquiteta recém-formada querendo erguer edificações bonitas em São Paulo; ele, de Ribeirão Preto, um jornalista indo aonde as notícias correm soltas. Do fruto desse casamento (não-oficializado), os dois tiveram a filha Manoela (Manoela Aliperti), já em fase de vestibular e querendo sair da cidade para prestar seu estimado curso numa faculdade do interior do estado. Logo, Ana ficará sozinha no ensolarado apartamento, com a única diferença de que Fábio está se instalando num prédio do outro lado da rua e no mesmo andar, desde já, causando divertidas (mas não menos irritantes) séries de ciúmes por parte do jornalista, enquanto a atual corretora de imóveis se sente livre, disposta virar a página e fazer coisas novas. A vida, no entanto, é como as pessoas costumam dizer depois de um dia em que quase nada dá certo: nem sempre as coisas saem do jeito que a gente quer.



Dirigido por Luiz Villaça, parceiro de Denise na série televisiva Retrato Falado, que também contava dezenas de histórias de mulheres brasileiras, De Onde Eu Te Vejo procura mostrar o quanto São Paulo não quer parar no tempo num sutil estilo cartão-postal, o que se torna algo prazeroso de acompanhar. Colocando Ana na rota de antigos estabelecimentos e moradias, na tentativa de convencer seus donos para ali construir um novo empreendimento pela imobiliária na qual trabalha, ela descobre que cada lugar ali tem sua própria história e que muito podem influenciá-la na sua conturbada fase. Não só ela, como Fábio também faz um trajeto passando por lugares marcantes de sua vida, impulsionado por um impasse profissional, aquela tentativa de buscar no passado uma chave para o futuro. Então, é aí que o roteiro de Leonardo Moreira e Rafael Gomes entregam passagens de efeito para atores mais do que consagrados como Juca de Oliveira, como um antigo dono do Cine Marabá, Fulvio Stefanini e uma cantina italiana, além de Laura Cardoso numa velha casa cuidando de pardais (um cenário deveras fotogênico!), todos estes veteranos com suas frases repletas de analogias e ensinamentos sobre uma vida bem vivida que, se não veste direito para os protagonistas, quem sabe cai como uma luva para cada espectador.

Se o carisma enorme de Denise Fraga e a figura paterna camarada de Montagner quitam boa parte do entretenimento romântico do filme, acontece que chega um momento em que há um desgaste, uma repetição de ações que não parece acrescentar ao que já foi visto e ouvido várias vezes. É fato que o casal separado está num conflito de ideias que parece não ter solução a curto prazo, mas aí o roteiro propõe mais personagens que surgem como interesses românticos dos dois, pessoas interessantes (ou não) que poderiam gerar um conflito mais distante da zona de conforto dos dois. Até a personagem de Marisa Orth, ótima como sempre, poderia ter um destaque a mais do que nas suas breves e pontuais cenas, quem sabe inserindo lenha na fogueira ou ser mais do que mais um caso de jornalista de classe média alta que não foi bem sucedida no amor.



É notável e louvável que esta produção de Globo Filmes, vendida como comédia romântica, se diferencie do seu tradicional e defasado catálogo. Buscando a elegância de películas argentinas (e isso se reflete na música dos créditos), De Onde Eu Te Vejo tem uma boa fotografia (ainda que poderia ter muito mais leveza nos movimentos de câmera) e uma narrativa que não apela para piadinhas sexistas; praticamente tudo o que vê é tratado com honestidade em prol do contemporâneo. Nessa ânsia por novidades, como a própria Ana afirma ter, o filme poderia se arriscar mais, tentar se arriscar a escapar das rotinas da vida, ainda mais quando tudo pode recomeçar numa rodoviária de São Paulo.




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