sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ave, César! | CRÍTICA


Assim como nos áureos tempos romanos, Ave, César! (Hail, Caesar!) remonta a uma época de expansão de uma luxuosa Hollywood dos idos de 1950, com suas fitas de grandes produções dominando cada vez mais as salas de cinema mundo afora e o estrelismo de seus artistas garbosos, muito favorecidos pelas luzes e lentes, se amplificando em uma espécie de culto politeísta lucrativo. Da venda de um estilo de vida influenciado pelos rostos sorridentes na tela às fofocas sobre os mesmos publicadas em tabloides de qualidade duvidosa, pouco a pouco, Los Angeles era tomada por zunidos de escândalos e discussões que, se duvidar, permanecem num círculo vicioso até hoje e assim por diante. 


Bem antes de uma roda de críticos franceses instaurar a politique des auteurs, privilegiando a função de um diretor pensante, e também da breve queda desse império da indústria de ficções vivas na década de 1960, desencadeando a contracultura, sempre havia (e nunca deixou de existir, é claro...) a figura redentora de um produtor nos estúdios para contornar todos os imprevistos que poderia surgir no set, principalmente quanto se trata de atores instáveis ou "festeiros" até demais. Produtor executivo da Capitol Pictures, a rotina de Eddie Mannix (Josh Brolin) começa antes do sol raiar, correndo atrás de algum artista do estúdio metido em alguma "encrenca", pra variar. Um trabalho deveras cansativo, o que faz com que Mannix recorra ao vício do cigarro, quebrando a promessa que fez para a esposa e indo ao confessionário várias vezes na mesma semana, além de receber uma proposta tentadora da Lockheed Corporation, uma empresa promissora no ramo da aviação, algo bem mais lucrativo e sério do que aquela rotina de futilidades e películas que se apagam com o tempo.



Quando o astro Baird Whitlock (George Clooney) é sequestrado dentro do set do épico Ave, César! - Uma História de Cristo, Mannix descobre que esta não será mais uma das suas funções para corrigir tudo a tempo dos horários previstos nas ordens do dia. Mannix procura encaixar um promissor ator de western no próximo filme do cultuado diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes), mas Hobie Doyle (Alden Ehrenreich, puro carisma) é mais hábil com armas e cavalo do que com as falas pomposas do roteiro; a diva dos filmes aquáticos, DeeAnna Moran (Scarlett Johansson, deixando de lado sua voz aveludada por uma entonação rápida e estridente, tal qual as musas da época soavam) engravidou sem casar, precisando resolver tal impasse já que, mesmo em Hollywood, ser mãe solteira não faz bem para a sua imagem de atriz principal. Como se isso não bastasse, Mannix ainda precisa sentar para argumentar com líderes religiosos como Cristo deveria ser representado em Ave, César, além de sempre se esquivar das gêmeas Thacker (Tilda Swinton), sedentas por escândalos de libertinagem dos astros da Capitol. Tudo isso e muito mais é condensado nesse perverso, mas elegante, retrato de uma velha Hollywood que escrito e dirigido por Ethan e Joel Coen com um misto de diversão e reverência que pareciam desabituados a fazer, depois do soturno Inside Llewyn Davis e os roteiros de Invencível e Ponte dos Espiões

Enquanto o sequestro de Whitlock envolvendo os planos "malignos" de um grupo comunista talvez seja a (sub)trama mais cansativa do filme, ainda que muito atual para nós, é com os tradicionais apelos ao nonsense que os Coens garantem sequências engraçadas e impecáveis por si só, aquelas cenas inesperadas que chegam de supetão. Das retratações de Quo Vadis e Ben-Hur, a cena musical 'No Dames' do astro interpretado por Channing Tatum trazendo além do sapateado preciso, o contexto de um homoerotismo enrustido (pontuado também em outros momentos) entre os atores, à comicidade trágica da dificuldade de Doyle recitar uma fala do filme de Laurentz, algo que os Coens deixam para resolver literalmente na sala de edição, outra passagem digna de arrancar gargalhadas com a montadora encarnada por Frances McDormand, Ave, César! se torna uma cadeia de emoções variadas, dos cortes entre filmes e seus flertes com os gêneros consagrados da época, onde agora o mocinho que passou batido numa produção pode-se tornar, enfim, o grande herói da história. 




Assim é Hollywood, apesar de nem sempre ter a ótima narração de Michael Gambon comentando sua rotina. Alguns detestam até a alma, outros seguirão como fãs de carteirinha, enquanto seus ídolos buscam o estrelato ou uma chance de redenção na carreira. Não por menos, na primeira cena em que os estúdios da Capitol Pictures são apresentados, os diretores escolhem a luz dourada da manhã sob a névoa da região para representar a indústria do cinema: uma fábrica de sonhos e fantasias onde nossos subconscientes podem se materializar, assim aspirado por um produtor ou diretor ou quem mais estiver envolvido nessa criação. Cientes disso, os irmãos Coen, por sua vez, tratam e fazem aqui um ótimo metacinema.





P.S.: se vocês querem motivos de sobra para ver o filme, tem Roger Deakins na direção de fotografia e uma boa trilha de Carter Burwell (indicado ao Oscar por Carol). 

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