quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa | CRÍTICA


Há muitas décadas antes de o movimento LGBT tomar força, seguida de constantes repreensões de um povo que insiste em ser conservador diante da vida alheia (vide a repercussão de questões no ENEM 2015), a questão do gênero sempre esteve presente na humanidade desde seus primórdios. Foi a sociedade moralista, então, que sempre fez questão de heteronormatizar os costumes e padrões de cada indivíduo, por mais que havia pessoas "desconfortáveis" com sua identidade imposta. Com os avanços da medicina, as cirurgias de mudança de sexo possibilitaram uma nova vida para milhares de pessoas, mas foi um caminho árduo até que fosse um processo eficaz. Uma jornada de redescoberta e dificuldades que Lili Elbe passou em A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl).

Einar Wegener (Eddie Redmayne) e Gerda (Alicia Vikander) são um casal de jovens pintores dinamarqueses vivendo na capital do país na segunda metade da década de 1920 e ambos desfrutam de uma cumplicidade ímpar. Enquanto Einar faz sucesso no meio burguês com suas pinturas melancólicas de uma paisagem que lhe marcou desde a infância, as telas de Gerda, por outro lado, são vistas com desdém, de difícil vendabilidade considerando seus retratos, mas não seria surpresa caso houvesse preconceito por se tratar de uma artista mulher. Diferente do ganancioso Walter Keane de Grandes Olhos, Einar tem um amor inestimável por sua esposa e acata até mesmo seu pedido para por um vestido e posar para uma tela que Gerda vem pintando do retrato de Ulla (Amber Heard), a melhor amiga do casal, responsável pelo batismo da nova moça ali, Lili. O que se tratava ser apenas uma brincadeira, logo vai afetando os sentimentos de Einar, rebuscando seus anseios mais profundos, algo que vai lhe dizendo que seu interior é completamente diferente da sua aparência física.



Conhecido por ser um diretor péssimo no quesito mise-en-scène, desaproveitando elementos potenciais nos cenários (e aqui não muda muita coisa) ao utilizar planos fechados e fixos, acaba que Tom Hooper trata o caso de A Garota Dinamarquesa com uma sensibilidade surpreendente, mas são os esforços dos carismáticos Redmayne e Vikander, com uma química convincente, que falam mais alto. Seguros em seus papéis, principalmente a atriz sueca que cada vez mais se destaca em outras produções, os atores encaram com naturalidade as cenas de nudez da primeira metade do filme, uma confidenciabilidade que é posta a prova em seu decorrer, especialmente quando Lili não se contenta apenas em se travestir ou quando Henrik (Ben Whishaw) flerta com a moça desconhecida. Sob a trilha comovente, mas esperada, de Alexandre Desplat, todo o processo de Einar abandonando sua personalidade masculina é conduzido com delicadeza, mas não está isento de verdadeiros momentos de horror, considerando que boa parte da medicina ainda considerava o homossexualismo, por exemplo, num caso de esquizofrenia.

É lamentável, então, que o restante do roteiro de Lucinda Coxon adaptado do livro homônimo de David Ebershoff queira contar mais coisas do que o necessário, abandonando outras ideias urgentes durante seus incidentes. Ao passo em que Eddie Redmayne parece ser orientado apenas para interpretar uma moça cada vez mais delicada e frágil, destoando de toda a luta contra tais representações estereotipadas, subtramas amorosas envolvendo Gerda e um antigo amigo de Einar (além de uma breve sugestão de um caso entre Lili e Henrik) passam a deixar A Garota Dinamarquesa menos interessante, ainda que as filmagens em locações reais sejam um grande chamariz. Talvez o filme pudesse dar mais força à causa em questão, uma vez que são poucas as cenas focadas na discriminação social contra pessoas trans nas ruas, considerando que casos de transfobia acontecem diariamente e por vezes abafados.



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