terça-feira, 16 de junho de 2015

Homem-Carro | CRÍTICA (4º Olhar de Cinema)


Houve um tempo, isto é, a partir de uns cinquenta anos, em que o Brasil começou a ver carros diferentes circulando pelas ruas do país, com suas formas arrojadas e sem ostentar os brasões das grandes companhias estrangeiras. Uma era em que um grupo de designers como João Gurgel e Anisio Campos procuravam criar automóveis bonitos e práticos para todo bom brasileiro. O tempo passou e os sonhos se tornaram lembranças que Anisio decidiu organizar com a ajuda incansável de sua filha Raquel Valadares, culminando nesta nostálgica e carinhosa jornada documentada chamada Homem-Carro.


No auge de seus oitenta anos, Anisio Campos quer nada mais do que arrumar suas pilhas e mais pilhas de documentos, pastas, fotos e demais arquivos que remontam toda a sua carreira, pretendendo guardá-los numa nova estante  em sua casa. E como este simpático senhor tem material! Desde desenhos de mulheres nuas a esboços feitos em guardanapos, passamos a desvendar juntos com pai e filha o início da carreira de Campos, ainda na década de 1960, quando projetou seus primeiros automóveis, hoje tão disputados por colecionadores. Nisso, é incrível perceber a alegria de Anisio ao rever (e até dirigir) seus projetos de tanto sucesso, como o AC e o Dacon 828, ou até mesmo um enferrujado Topazzio, todos esses modelos trazem boas histórias para contar. Em tempos onde carros passavam a ter intuito apenas funcional, deixando as curvas estilosas para o passado, Anisio já pensava na ergonomia e no conforto muito antes das grandes montadoras estrangeiras. 



Repleto de narrações carinhosas feitas por Raquel, que também contribui com suas lembranças, o documentário ainda traz algumas cenas dos 15 carros desenhados por Campos em uma corrida que enche os olhos de qualquer aficionado por carros. Infelizmente, há pouco da corrida em tela, o que tornaria a experiência bem mais empolgante. Mas Homem-Carro é honesto e muito mais do que um "vídeo de família". Existe aqui um bom paralelo da história do automobilismo no Brasil da segunda metade do século XX, cheia de altos e baixos para quem visava criar linhas de carros originalmente brasileiros, e que não merece ser esquecido.





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