sexta-feira, 6 de março de 2015

118 Dias | CRÍTICA


Se o Irã teve um ponto de ignição para um ato de indignação popular, este começou (provavelmente) a partir das eleições presidenciais de 2009, em que Mahmoud Ahmadinejad tentava a reeleição contra Mir Hussein Mussavi. Parte da população clamava por Mussavi, um candidato mais aberto a mudanças, e senão uma aproximação maior com o Ocidente, que por sua vez mandava seus correspondentes internacionais para cobrir a conflitante. O problema é que um deles não esperava ser detido por 118 dias em sua própria terra natal.

Cobrindo a eleição presidencial para revista Newsweek, Maziar Bahari (Gael García Bernal) regressa ao seu país de origem a fim de entrevistar partidários de ambos os lados e também fazendo um retorno às suas lembranças de juventude na casa de sua mãe, lembrando da irmã e do pai falecidos (ambos com histórico de militância). Ao chegar no aeroporto de Teerã, ele conhece Davood (Dimitri Leonidas), um carismático e amigável rapaz que fará Bahari conhecer os reais interesses do povo, os auto-intitulados "educados", que não têm receio de dizer que dispensariam o assistencialismo oferecido pelo governo Ahmadinejad. 

Com sua filmadora, Bahari faz questão de mostrar a alegria dos iranianos, que acreditam no poder do voto democrático, mas não esperavam pela vitória de Ahmadinejad com seus mais de 60% de votos válidos. Fervem especulações sobre sabotagem nas urnas e povo parte para as ruas, assim como ergue mensagens de protesto no Twitter, e a ilustração desse momento apela para um estilo bem publicitário, com hashtags aparecendo acima da cabeça de cada cidadão, veículo e prédio em Teerã. Há, pelo menos, um grande acerto em utilizar (ou emular) vídeos amadores registrando as diversas manifestações em massa até os choques violentos com a mílicia.



Se até sentimos que 118 Dias (Rosewater) vai explorar a fundo e adiante estes conflitos, o processo é (infelizmente) interrompido quando a polícia bate à porta da casa dos Bahari e leva o jornalista para a cadeia, acusando-o de ser um espião a serviço dos Estados Unidos. O que começa ser um drama de confinamento e persistência, tanto o roteiro como a direção de Jon Stewart se tornam uma sequência confusa de emoções e interrogatórios aborrecíveis, pra não dizer nas construções instáveis dos personagens. O "especialista" Javadi (Kim Bodnia), que insiste na condenação de Maziar, jogando diversos fatos políticos e ainda apela diversas vezes para a violência, em momentos aparece como um sujeito que tem uma compaixão por seu "refém", pra voltar a ser rigoroso, até se revelar idiota que cai num papo sobre massagens.

Trabalhando num bom ritmo, mas nada lá excepcional, Bernal consegue transmitir carisma em meio às indecisões narrativas que, assim como a fala de Dazeem para Bahari sobre ter uma câmera e desperdiçar seu poder no melhor momento. Diferente do documentário anônimo Fragments of a Revolution, 118 Dias se entrega a uma fórmula já saturada em cinebiografias e perde a chance de contar sobre um momento histórico e audiovisual, quando poderia ser justamente mais intrigante.


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